15 janeiro 2006

Venha por este lado, por favor

D. saiu do táxi, a rua estava cheia de gente de domingo, o museu estava iluminado por um céu cinzento, e ela podia sentir a electricidade no ar. Entrou apressadamente, comprou o bilhete, colocou os auscultadores do novo Ipod e começou a visita.

Sinto o teu olhar sobre os objectos expostos, como se aqui estivesses e eu pudesse estender a mão, rodeias as estatuetas e inclinas ligeiramente a cabeça, como se eu pudesse também ler.

D. andou errante pelas salas, agora quase vazias pelo aproximar do fim do dia, não conseguia fixar nada que a impedisse de pensar nele, a mão tocava os objectos, quase eléctricos, a humidade do cabelo, mãos , pele. Dizia para si, enquanto ouvia a guitarra de Bill Frisell, que não queria sair mais dali. O museu é um conjunto de objectos estáticos, imutáveis. Assim seria ela a partir daquele momento.

Vejo a tua imagem reflectida no espelho das telas protegidas, cheiro o teu cabelo, caem gotas de água pelas tuas pálpebras, guardo a tua mão no meu bolso.

D. sentou-se num canto, numa das cadeiras baixas de vigilante, fechou o olhos, deixou que os acordes da guitarra rasgassem o coração enquanto ele ardia, subtilmente já sem corpo e ainda presente. Como era possível sentir ainda a mão dele limpar as lágrimas?

Chove chuva


Chove Chuva
constant is the rain
Chove Chuva
endless is the pain
Chove Chove Chove Chuva

(Thievery Corporation - Chove Chuva
Sergio Mendes & Brazil '66)

09 janeiro 2006

That's where it is


Is it in her eyes ? (No no you'll be deceived)
Is it in her sighs ? (No no she'll make believe)
If you wanna know if she loves you so
It's in her kiss (That's where it is)

Is it in her face ? (No no that's just her charms)
In her warm embrace ? (No no that's just her arms)
If you wanna know if she loves you so
It's in her kiss (That's where it is)

07 janeiro 2006

Fantasia dos Infelizes


Remou agora mais depressa, guiado pela luz amarela que guiava os músculos dos braços, deixando para trás lágrimas de suor e desespero; uma e outra, as pás dos remos mergulhavam descompasssadas na água negra. Os pés rasgados encontravam os pregos do fundo do bote e o sangue misturava-se com a água salgada e os restos de roupa de A. caída no fundo.

Mais uma remada, um salto das pás numa rocha e o impacto na areia levado pela onda. G. deixou-se cair na areia suja, por momentos, e desatou a correr até ao farol onde a luz amarela parecia chamá-lo. Entrou.


Subiu a escada de ferro, e sentiu as vozes que se tornavam nitidas enquanto o compasso do seu coração enlouquecia. Aproximou-se de uma porta fechada com maçaneta redonda, que lhe pareceu familiar, parou antes de entrar.

A madeira da porta , o chão escuro, um ruido que lhe pareceu de uma chaleira de chá, mais vozes que falavam baixo e com uma lentidão que parecia dignidade sentida. Falavam como se num lamento contínuo mas seguro esperassem que alguem abrisse aquela porta, os segundos pareciam não passar, a porta entreabriu-se, o odor fétido de água suja invadiu o espaço. Entrou

A sensação de dejavu invadiu-o de forma assustadora, demorou mais alguns segundos a perceber que eram os seus três amigos desaparecidos há sete anos no mar, quando velejavam juntos.

Recordou-se das notícias e da especulação acerca de si e do seu papel na ajuda que lhes teria dado quando a tempestade quase destruiu o veleiro e os lançou borda fora. G. tinha-se salvo agarrado ao leme.

Aproximaram-se.
Vem G. , estás salvo, agora vives aqui. Para sempre.





05 janeiro 2006

O Barquinho na Volvo Ocean Race - Cape Town -- > Melbourne

A Alameda prefere o Pirata das Caraíbas, (hoje apenas a 2 milhas do leader ABN Amro), que promove um filme em vez de um banco.

E enquanto o Brasil 1 regressou à costa para reparações, pode cantar-se O barquinho com Elis Regina e Toots Thielemans:

Dia de luz festa de sol
e o barquinho a deslizar no macio azul do mar
tudo é verão o amor se faz
num barquinho pelo mar que desliza sem parar
sem intenção nossa canção vai saindo desse mar
e o sol beija o barco e luz dias tão azuis


04 janeiro 2006

Por indicação celestial escolhi hoje este despojo, e como habitualmente não avisei que ia estar na sala branca, para provocar a dor que é só minha



Dois minutos antes olhara a manga do casaco, sacudira o pó de açúcar que ficara do croissant e avançara pela sala branca cheia de gente ansiosa por a ouvir. Viu a face dele e os lábios brilhantes que evitara debotar, olhou com dificuldade a luz intensa que lembrava o poder dos dias em que estamos numa praça, numa tarde pelas 4, sem outro ruído que não o das folhas do outono, misturadas com o vento leve, e olhamos os canteiros e com um prazer estranho pensamos em quem os colocou ali. Porquê ali e naquele dia ?

Avançou pela sala e no momento em que se ia sentar pareceu-lhe ver outro sorriso ao mesmo tempo que os papéis se soltavam da mão e se espalhavam pela mesa e pelo chão, e a mesma manga do casaco parecia voar perdida, sem nada poder fazer, rolando o corpo sobre si, envolto numa dor que seria a sua última dor. Ninguém mais na terra seria como ela.


(foto: Helmut Newton)

03 janeiro 2006

Alguns, achando bárbaro o espectáculo, prefeririam (os delicados) morrer.



Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


(Os ombros suportam o Mundo - Carlos Drummond de Andrade)

25 dezembro 2005

Nec spe, nec metu

Sicut cedrus exaltata sum in Libano
et sicut cypressus in Monte Sion
quasi myrrha electa
dedit suavitatem odoris
et sicut cinnamomum

et balsamum aromatizans

(Sou alto como os cedros no Líbano
e como os ciprestes no Monte Sião
e mirra mais excelente,
exalo um odor suave
como a canela e o bálsamo)

24 dezembro 2005

Prendas de natal ainda por embrulhar

Prendas por embrulhar, perdidas ainda pela praia, enquanto C. se aproxima vindo de Sul, com laços brilhantes prateados, papel colorido, fita-cola, etiquetas para colar nos embrulhos, com vento difícil de manobrar; chegará a tempo ?

21 dezembro 2005

Isto tem alguma coisa a ver com o Natal?


D. descansou da corrida de alguns km, sentou-se na relva, e olhou o melro que se escondia na pequena árvore do estádio universitário. Olhou, sem ver, o avião que descia para Lisboa, um dos personagens que fazia parte dos seus domingos, na hora em que todos se retiram para almoçar, para subir ao 3º andar de um apartamento, meter a chave à porta e sentir os cheiros de uma panela com couves e batatas, ver 3 copos de vidro facetado e barato da loja da rua dos fanqueiros, a mesa com uma jarra de flores de plástico, a face e os cabelos estragados de quem se levanta ao domingo e já não tem esperança que o tempo a salve. D. olhou os que se retiravam, mas alguém ficara.

O homem, de camisola verde e camisa azul escura, pegava numa pequena figura que não teria mais de 3 anos e batia-lhe. A criança chorou e ficou deitada na relva. O homem olhou em volta, com as mãos na cabeça, andou uns passos, hesitou, caiu de joelhos e pegou nesse pequeno ser.

D. sentiu as lágrimas daquele homem misturadas com as da criança, e viu como ele a abraçou, e sem nada dizer lhe pediu perdão.

Depois não havia mais ninguém, como não haveria mais ninguém capaz de dizer que D. não voltaria aquele lugar com medo das lágrimas que não eram suas.

19 dezembro 2005

17 dezembro 2005

16 dezembro 2005

Finge tão completamente

- Agora és artista?
- Porquê?
- Escreves e colas coisas na net, no blogue.
- Isso não é ser artista, é a fingir, é para ler mais tarde
- Mas é arte?
- Não, é cut & pasta
- Spaghetti all'oglio?
- ....
- Não é arte, já percebi, é outra merda qq
- Depois se vê.
- O quê?
- O que é.

14 dezembro 2005

Diz-lhe isso depressa


Enquanto G. acabava o chá aromático e olhava para os olhos de D, a sala parara numa espécie de slow-motion de fraca intensidade, e os olhos de todas as almas viraram-se para aquela mesa, ansiosas.

G. sabia do efeito do olhar, sabia porque tinha estudado a pose, sabia porque agora era D. e antes tinham sido T. e antes ainda H.

A primeira vez que G. entrara naquele salão de chá no Largo do Carmo foi para se esconder de um perseguidor comercial que abandonara os seguros e tentava vender-lhe casas. Achou a atmosfera nada estranha, 3 mesas ocupadas, dois homens a ler , um casal a desembrulhar prendas, um empregada de saiote verde e camisa beige com bloco de notas na mão, cabelo apanhado. Cheirava a jasmim, e foi isso que pediu.

Depois, voltou. E reparou, de todas as vezes, que a cena era sempre a mesma, os personagens, e os gestos também.

Voltou desta vez com D., queria contagiá-la com a atmosfera, prepará-la para as palavras que adiara sempre, como sempre.

Mas mal se sentara e sentira o efeito do olhar em D., sabia que nunca lhe diria, não lhe diria que não pensava vê-la de novo, não diria que assim que ela o amasse ele fugiria, que assim que ela sorrisse de forma sincera ele sentiria a repulsa habitual, que iria encontrar no aroma do cabelo dela o aroma entediante do shampoo, que ao beijar-lhe o pescoço iria odiar o perfume, que se irritaria de não saber identificar os odores, sempre iguais. Não seria capaz de lhe dizer nada.

Mas nesse dia, talvez pela proximidade das mesas, talvez pela humidade das almas encurraladas, de repente, do meio das almas suspensas no odor do jasmim, alguém derrubou a cadeira, atirou o bolo de noz para o chão, o livro voou, e gritou: diz-lhe !

Diz-lhe isso depressa.

06 dezembro 2005

Ships that go sailing


Somewhere beyond the sea,
somewhere, waiting for me,
my lover stands on golden sands,
and watches the ships that go sailing

(charles trenet and jack lawrence)

Verde e Vermelho


S. parou o carro no semáforo, ajeitando a gravata vermelha comprada na Boss da Av. da Liberdade, olhou o espelho, preocupado consigo e com a possivel queda de alguns cabelos. Ligou o número da V. para combinarem o jantar de mexilhões belgas.

K. chegou à esquina onde passara a estar todas as manhãs, encostada ao semáforo, desde muito cedo.
Chegara ali antes do sol, com o vestido comprido vermelho, já muito sujo das muitas vezes que se sentara no lancil, entre os 75 segundos de cada mudança de sinal. Tantas vezes que na sua cabeça já mal conseguia distinguir os carros e os condutores, já mal conseguia estender a mão e balbuciar sempre o mesmo, para receber sempre os mesmos olhares de esguelha, ou receber o reflexo dos óculos escuros.

K. olhou para o carro de S., ali parado. O azul escuro metalizado reflectindo-se na sua cabeça, a fome distraida, os óculos de sol ray ban de S. e a cabeça levantada num sorriso meloso entre conversas com o telefone.

K. levantou-se, só mais uma vez, despiu o vestido, a camisola bege, a roupa interior e ficou só com um lenço colorido na mão.

Subiu para o capot do carro de S., esticou-se ao comprido e adormeceu.

05 dezembro 2005

Espaço Infantil: Voz Maviosa



- Branca como as nuvens do inverno? Não pode ser no verão?
- Ah, não pode, não. Nuvem no verão é nuvem de chuva. Portanto é escura...
- É, mas nos países frios, no inverno as nuvens são escurinhas...
- Olha, vamos parar com essas discussões que não levam a nada. No máximo encompridam o livro e fazem ele muito chato...A pele da princesa era branca, pronto. E as mãos da princesa eram macias como... Ah, não importa. As mãos eram macias, os pés eram pequenos, e a voz da princesa era maviosa.
- Maviosa?
- É, maviosa, melodiosa! Eu sei que essa palavra não se usa mais, mas se eu não usar umas palavras bonitas, meio difíceis, vão ficar dizendo que eu não incentivo a cultura dos leitores. (...)


Ler a storia aqui

01 dezembro 2005

Some walk by night, some fly by day



(Moonlighting - A. Jarreau)

B B & B - am I

After one whole quart of brandy
Like a daisy, I’m awake
With no bromo-seltzer handy
I don’t even shake

Girls are not a new sensation
I’ve done pretty well I think
But this half-pint imitation
Put me on the blink

I’m wild again, beguiled again
A simpering, whimpering child again
Bewitched, bothered and bewildered - am i


( Lorenz Hart & Richard Rodgers)


28 novembro 2005

Troco um desejo por um sorriso

Troco um desejo por um sorriso
Nem é preciso lucrar
Fecho os olhos, se é preciso
No dia em que te beijar

Troco um desejo por um sorriso
Por dentro do nevoeiro
Mostras-me a lua, em aviso?
Mostro-te o sol por inteiro

27 novembro 2005

Do riso e do esquecimento


G. elevou-se da cadeira da classe executiva, a meio da noite sobre o oceano, pela janela pequena rezou à lua, acabou o copo de Cliquot, viu pela ultima vez as listas da camisa da hospedeira, abandonou os auscultadores e o piano de Jarrett, atirou o diário para o chão. A sua camisa de riscas rosas alastrou um vermelho vivo de tinta permanente, a tinta permanente, a última ideia de eternidade possível.

Depois abriu a porta de segurança do avião.


24 novembro 2005

O Grande Baile na Conservatória do Registo Predial

M.A. vestiu a criança de 2 anos com a nova armadura de inverno, chamou H. e desceram para aTransit fria e com cheiro de carne entranhada, deixando os desejos em casa e levando as suas esperanças de uma nova casa, contra toda a chuva e desânimo de uma manhã de Novembro

V. tirou a senha de um golpe. Nove da manhã e mais 23 minutos, atirou o cheiro do Boss de rojo pelo balcão de madeira escura e gasta e voltou para a rua.

L. voltou ali pela terceira vez, agarrado ao kispo velho e molhado, com o cabelo branco penteado para trás, sem lavagem aparente há vários dias, sobraçando pasta escura de onde saiam imaculados e envergonhados papéis.

Duas horas depois falavam os três deste encontro improvável numa sala minuscula com 8 cadeiras, um balcão, 2 funcionários atentos e preocupados, mal vestidos e mal pagos, rodeados de dossiers caídos, prateleiras improvisadas, 30 pessoas pela rua em espera balbuciada, resmungada e resignada.

Os papéis acumulavam-se pelo balcão, as explicações mal humoradas atiradas ao ar entre o silêncio dos inocentes, de cabeça baixa, faziam os circunstantes temer o pior: esqueci-me de algum papel?

Num canto, uma caixa: "Deixe aqui Ideias e Sugestões".

F. olhou e não teve vontade de rir: pegou na agenda, rasgou uma folha e escreveu:

Gostava que pusessem uma colunas lá fora e cá dentro para se poder dançar enquanto esperamos pela certidão

23 novembro 2005

22 novembro 2005

Livro de um voo por entre prédios e folhas de música


T. recorda como as folhas do caderno voaram naquele dia de Novembro, um dia sem poesia, sem alegria nem chuva. Acabara de tocar guitarra na imensidão daquela marquise, onde repousavam lençóis da mãe.

O cabelo estava preso por ganchos negros, daqueles frisados no metal para prender melhor os capilares, havia uma mancha de sol no pescoço livre de enfeites, muito branco, onde duas pequenas manchas secas lembravam o sonho da manhã aflita, da manhã em que era preciso acordar cedo para a audiência, da noite em que o suor a despertara pelas cinco, com um olhar rápido para a frincha da persiana onde esperava ver luz.

Não havia luz, só ruidos de uma árvore que invadia a varanda com ramos longos e folhas animadas, e T. acomodou um pouco a cabeça nas grandes almofadas, gesto que repetiu de um lado para o outro da cama, irrequieta e desfeita em ansiedade. De um lado da cama apareceram dois seres pequenos que a convidaram a tocar um pouco da sua guitarra, sorrindo e parecendo convidar a um ensaio: somos a tua audiência, a antecipação do teu momento mais difícil, vem.

T. voou pela janela, agarrada às mãos daqueles pequenos seres, mostrou-lhes num voo largo o anel de fogo que envolvia as casas, sorriu ao ouvir os gatos, olharam juntos as montanhas azuladas e os campos roxos, sorriu pensando que em qualquer momento regressaria à cama e terminaria a viagem impossível. Voou ainda com o caderno e poisou-o numa pedra colorida, ouvindo um som agudo que lhe pareceu um virar de página.

Quando acordou e finalmente viu a pequena mancha de luz na persiana, suspirou aliviada, como aqueles que se libertam de um pesadelo. Procurou no caderno, onde apontara a composição para a temida audiência.

Reparou então que as folhas estavam rasgadas, nenhuma réstea da sua escrita, apenas duas manchas roxas na capa do caderno que lhe pareceram dois pequenos seres impressos.

17 novembro 2005

Volvo Ocean Race 2005-2006


Saida de Vigo (Nov.05) e chegada a Gotemburg (Jun.06)

Equipas e classificação actual (*):

Leg 01 : Vigo - CapeTown

ABN AMRO ONE (1)
Brasil 1 (2)
ABN AMRO TWO (3)
Ericsson Racing Team (4)
Sunergy and Friends (5)
movistar (6)
Pirates of the Caribbean (6)


The winner of the Volvo Ocean Race will be the boat with the most points accrued when the finish gun goes in Gothenburg on 17 June 2006 !

(*) Ao fim do dia de hoje, 17 Nov

(6) e (6) estão em reparações em Portimão e Cascais, após as 48h violentas do início da regata

15 novembro 2005

O Crepúsculo dos Deuses

LF estava sentada há algum tempo na esplanada da Vela Latina, com a boina comprada na Bershka, ajeitava-a com a mão direita enquanto a esquerda segurava o bloco de notas (oferecido por C.), e ainda não acreditava no que acabara de ouvir: o Candidato de óculos brancos e camisola de gola subida acabara de lhe confessar a desistência da corrida ao putativo lugar de Belém. LF secretamente admirava FT, o seu olhar ao mesmo tempo altivo e assertivo, os olhos quasi-grandes atrás do óculo obrigatório, as mãos magras e os gestos que afirmavam a independência e a "luta" sem mais.
"Mas há 2 meses assegurou-me, digo, assegurou ao país que nunca desistiria! O que o fez mudar de ideias?!"
"As sondagens não me dizem nada. Sabe, LF, a política real faz-se todos os dias, o real olha para nós de manhã e é a gasolina que nos faz agir! O dia nasce e estamos ou não preparados para ele? Diga-me."

LF não respondeu, o gesto de passar o dedo pelo lábio debotou o baton Fetiche levemente no queixo, fechou o bloco de notas que segurava com a mão esquerda e levantou-se, deixando um rasto de eau de toilette CK pela mesa. Telefonou para o jornal:

"SF, toma nota para o editorial: FT desiste pressionado pelo interesse da esquerda, afirmando o seu apoio a um candidato", cito: "melhor posicionado para a derrotar"

Pirates on their way in Leg 01 of the Ocean Volvo Race 2005-2006

11 novembro 2005

Spectrum


Spectrum

Olho para M. e retiro o olhar que poiso em V.
V. inunda o quarto com o olhar que reluz em mim
Onde houvera risos e champagne em copos baços
(gelados)
Há agora este silêncio de aves repousadas na noite
(Com olhos abertos)
A capa de livro aberto enrodilhada na face de V.
Releva as letras góticas,
E está imiscuida com pestanas de V, cujos olhos
(abertos)
Continuam a irradiar a mesma luz com que
(relutante)
Amou M.
O vidro em pedaços polvilha a face e o seio de M.
De um copo antigo de família, agora desprezado
(pulverizado)
A minha mão corre pelo corpo de M e acaricio V.
(com os lábios roxos)
Como se fosse possível continuarmos os três
(mais que doze minutos)

Que fazem aqui este corpos gelados?

10 novembro 2005

Encontro fantástico na Vauxhall Bridge onde Mr William Byrd me aconselhou a temperar a lagosta com açafrão, bem como a audição das Cantiones Sacrae

Espaço infantil : Toca e Foge

Eu sou o Cristian.
Tenho 7 anos.Ando no 1º ano.
Vivo na Aldeia da Mata.Na escola gosto de ler e fazer contas.
No intervalo gosto de brincar e de jogar ao jogo do toca-e-foge, da macaca e da cabra-cega.
O meu clube é o Benfica

Eu sou o Lino.
Tenho 8 anos.
Ando no 2º ano.
Vivo na Aldeia da Mata.
Gosto de brincar ao toca-e-foge.
Eu sou do Sporting.

09 novembro 2005

I can´t get started

I'm a glum one
It's explainable
I met someone
Unattainable
Life's a bore
The world is my oyster no more
All the papers
Where I lead the news
With my capers
Now will spread the news
Superman
Turns out to be flash-in-the-pan


I've been around the world in a plane
Designed the latest IBM brain
But lately
I'm so downhearted
'Cause I can't get started with you


I've been around the world in a plane
I've settled revolutions in Spain
The North Pole I have charted
But man I can't get started with you
And at the golf course I'm under par
Metro-Goldwyn wants me to star
I've got a house and a show place
But can't get no place with you

(Jamie Cullum, Rod Stewart, Frank Sinatra...)

06 novembro 2005

a capella

Se quisesse podia levar-me num cruzeiro à volta do mundo, podia ler os meus lábios e oferecer-me um chocolate pequeno embrulhado em papel violeta.

Se quisesse podia escrever uma carta contando-me uma história arrancada do fundo dos oceanos, contando-me como os dias do mar correm em sorriso, elevando-se em ondas desesperadas em ver tudo o que as almas de um marinheiro destilam em choro salgado, ali, onde ele olha para a camisola suja, passando as mãos uma e outra vez, sem nada.

A não ser uma camisola que alguém tocou um dia, que ele desejaria não tirar nunca até que as suas mãos, agora vazias, pudessem enfim tocar quem as tocou um dia, quem está para lá do horizonte altivo e seco, com dedos longos.

E, tocando quem lhe tocou a alma, pudesse dançar, para além do mar, numa praia onde a bruma e as gotas de água os envolvessem para sempre.

(Dancing on the beach, quadro de Edvard Munch, 1863-1944 )

Afinal, eu também escrevo poemas, se ...

Se me doer alguma coisa
Se puser em relevo o sentimento do dia
Se acaso me doeu o espelho
Se a véspera de natal me assaltar
Se olhar uma fotografia de há um mês
Ou do século passado

Eu também escrevo,
pondo em relevo
Também versejo
como gracejo

Também me odeio,
se me pavoneio
Também me engano,
como este ano

O ano passado,
que não passou
Enrolou,
estendeu para o ano

Não era preciso ser diferente,
nem coerente
Apenas reluzente,
quando não ardente

E assim indiferente
teclo improvisos
Para serem os meus avisos



(foto: Rilke escrevendo no Hôtel Biron, Paris)

04 novembro 2005

What's going on?


Mother, mother
There's too many of you crying
Oh, brother, brother, brother
There's far too many of you dying
That's right
You know we've got to find a way
To bring some lovin' here today

Oh my father, father
We don't need to escalate
You see war is not the answer
For only love can conquer hate
You know we've got to find a way
To bring some lovin' here today
Barricades, can't block our way
Don't punish me with brutality

Talk to me
So you can see
Oh what's going on
What's going on


(Marvin Gaye)

03 novembro 2005

Lua pescada no fundo do Mar (I)

Mesmo que o navio avance mais algumas milhas F. já notou a proximidade dos pontos da carta náutica da misteriosa onda de sonar que enche o radar.

Levantara-se nesse domingo com a boca a saber muito mal, e recordou-se do Dr. JS que o abordara no Bairro Alto na noite anterior, e se apresentara como apoiante de Silva presidenciável, assessor de gravata rosa, de madrugada. JS apresentara-se perante um prato de carapaus de escabeche e copo de favaios, uma agenda preta pequena e de bom gosto com um lápis com o qual apontava sinais estranhos que tanto podiam ser graus de escrita como invenções de bêbado atormentado.

F. escutara divertido a verve do Dr. que passou da gabarolice de apoiante para a de revelador duma missão soberba, reservada a eleitos: descobrir porque razão um astro caíra, ao abrigo da noite, na baía de Cascais.

Como pistas o Dr. JS dissera possuir apenas a da filosofia intuitiva, a boçal figura do amor celestial e outras lúgubres expectativas que alcançava pela redenção da morte pelo amor.

F. leu as coordenadas escritas no guardanapo de papel com nódoas róseas e anotou-as.

01 novembro 2005

Podemos agora saber o que são, isso dos sonhos reais?

Saiu da casa alugada para uns dias, passou devagar pelo pórtico onde se escondiam atrás pedras frias de um lugar anónimo para ele.

Lembrou a hipocrisia do dia obrigatório e depois parou o carro na berma. Onde estão esses seres da tua memória que já não vivem a não ser dispersos entre lembranças de que te julgas o único? Onde estão os lugares onde os corpos perdidos na tua memória repousam, sem que alguma vez te tenhas procupado em homenagear um só que seja?

Diz agora o que sabes dessa noite que recordas agora, onde a tua mãe te visitou e perguntou como estavam todos os nossos, e te agarraste ao sonho e lhe pediste que não fosse, que te prendesse a ela outra vez, que te embalasse e te dissesse e te contasse o que te esperava, que te dissesse que o inesperado é a única coisa que te faz sólido e sentir que és capaz de tudo, ou te faz diminuir perante a memória canalha que às vezes te faz sentar na cama a meio da noite sem saber nada, e te faz atirar a almofada para o chão, envergonhada de lágrimas