Sinto o teu olhar sobre os objectos expostos, como se aqui estivesses e eu pudesse estender a mão, rodeias as estatuetas e inclinas ligeiramente a cabeça, como se eu pudesse também ler.
D. andou errante pelas salas, agora quase vazias pelo aproximar do fim do dia, não conseguia fixar nada que a impedisse de pensar nele, a mão tocava os objectos, quase eléctricos, a humidade do cabelo, mãos , pele. Dizia para si, enquanto ouvia a guitarra de Bill Frisell, que não queria sair mais dali. O museu é um conjunto de objectos estáticos, imutáveis. Assim seria ela a partir daquele momento.
Vejo a tua imagem reflectida no espelho das telas protegidas, cheiro o teu cabelo, caem gotas de água pelas tuas pálpebras, guardo a tua mão no meu bolso.
D. sentou-se num canto, numa das cadeiras baixas de vigilante, fechou o olhos, deixou que os acordes da guitarra rasgassem o coração enquanto ele ardia, subtilmente já sem corpo e ainda presente. Como era possível sentir ainda a mão dele limpar as lágrimas?

