11 setembro 2006
E o resto é mar
18 agosto 2006
Os olhos já não podem ver a lua
Agarrou de novo o microfone e perdeu mais um tempo de entrada, perdeu mais uns brilhantes do vestido rosa curto, com franjas. O homem da guitarra voltou atrás, a bateria deu três toques ligeiros, rufados. Recomeças ou não?
"I went away when you needed me so, open up your eyes, no really knows, everlasting love, dont need no money, no more, everlasting love..."
Os dois clientes restantes sairam deitando abaixo as cadeiras de espaldar redondo de metal. Luzes brancas na sala.
L. baixou-se para deixar o microfone no chão de madeira poeirento, e olhou as luzes brancas que zoavam, ou seriam os seus ouvidos a estalar? ou seriam os anões que circundavam a face e as pálpebras? Era aquele o momento esperado, aquele em que as mãos de oiro e os pulsos chocalhantes se separavam do corpo e iam enfim juntar-se às teclas do piano?
Era aquele o momento em que voltavam a encontrar-se os desejos, e as luzes a iriam finalmente proteger do mundo onde dançava e cantava, agora agora agora, no páteo da vila com uma saia colorida e um laço na cabeça ?
Queria tanto crescer e agora fazia círculos à volta da lua, uma menina encerrada num corpo velho de mulher.
17 agosto 2006
Luta Greco-Romana
A História Secreta (Donna Tartt) é The Secret History e não The Secret Story, e esta diferença de tradução impossivel faz uma enorme diferença.
"Tenho uma história para contar, mas já é a única historia que posso contar", diz Richard Pappen, o narrador e o espectador, embaraçado embriagado e enrodilhado no remorso.
Hoje o acto, qualquer acto, parece irrelevante, parece não fazer história, mas como um furacão que ganha força de repente eleva-se nos ares e paira sobre quem o cometeu. Paira sempre para sempre, e não vale o esforço de limpar os olhos, esfregar o peito e mergulhar em águas límpidas.
Agora já não nos pertence: o nosso acto (i)reflectido espelha-se nos outros.
16 agosto 2006
27 julho 2006
Dos homens e das mulheres
Os homens vivem confusos e muito atrapalhados pelos novos papéis das mulheres e muito atrasados em relação aos seus, que parecem velhos e não trazem nada parecido com a felicidade. Alguns, como cães, seguindo obedientes, outros, como macacos, catando furiosamente, outros ainda olhando as estrelas como se daí caísse a sua amada prometida.
Desejam-se então, como seres completamente desconhecidos, as imagens que fazem dos outros é uma renda que se desfaz, devagar.
Isto sim é uma crise, um corte.
(quadro: Eric Fischl - the bed, the chair, waiting)
26 julho 2006
25 julho 2006
A Chantagem das Galinhas
Cansados de tanto desprezo, os "cérebros" exigiram bolsas. Cansados das bolsas exigem agora dólares (ou euros, se faz favor), em pedinchice teatral no aeroporto.
Na patética manifestação de"fuga" já havia cérebros arrependidos. A capoeira estava em pânico.
Nós os que não somos "cérebros" e que não fugimos para lado nenhum agradecemos que se pirem.
O mais depressa possível.
Na patética manifestação de"fuga" já havia cérebros arrependidos. A capoeira estava em pânico.
Nós os que não somos "cérebros" e que não fugimos para lado nenhum agradecemos que se pirem.
O mais depressa possível.
21 julho 2006
If I Were Tickled by the Rub of Love
And that’s the rub, the only rub that tickles.
The knobbly ape that swings along his sex
From damp love-darkness and the nurse’s twist
Can ever raise the midnight of a chuckle,
Nor when he finds a beauty in the breast
Of lover, mother, lovers, or his six
Feet in the rubbing dust.
And what’s the rub? Death’s feather on the nerve?
Your mouth, my love, the thistle in the kiss?
My Jack of Christ, born thorny on the tree?
The words of death are dryer that his stiff,
My wordy wounds are printed with your hair.
I would be tickled by the rub that is:
Man be my metaphor.
(Dylan Thomas)
Ecce Homo
Saio do carro, entro na área de serviço, são 07.50h de uma manhã de Verão, e vejo que todos os senhores são gordos, têm maletas a tiracolo, usam perucas ou cabelo pintado de castanho, têm adornos de anéis em dedos papudos, usam sandálias de pele castanha e meias brancas, polos de riscas e calções.
As filhas dos senhores gordos usam tops brancos apertados, e calças apertadas e de cintura baixa, deixando que as gorduras, de repente feitas formosuras, invadam o espaço livre do mundo desoxigenado. Os piercings pendem dos umbigos, arranjados de forma a que as pregas da gordura não escondam a preciosidade, enquanto um cinto muito fino descai pela pelvis. Do conjunto sobressaem sandálias de salto muito alto, de corda.
As mães das filhas dos senhores gordos usam calções castanhos, sobrepostos por camisetas de manga cava, deixando ver soutiens brancos ou cremes de tamanho máximo, usam cabelo curto de cor caju, de onde pendem brincos imitando cornucópias, ajeitados entre suiças longas retorcidas no sentido da face retocada e rotunda. Os filhos dos senhores gordos...
Acabei o café e tenho de sair, mas vejo ainda que têm tatuagens nos braços, que as camisetas sem mangas com dizeres anglo-universitários americanos não disfarçam, que ... não posso ficar mais tempo. Ao sair cruzo-me com motards de cabelho longo grisalho, alguns com lenços verdes amarrados na cabeça, quase todos gordos e aparentando cores rosadas na face e testa enrugada. Entro no carro e ouço na Radio os GNR: " e que tudo mais vá pro inferno". Não tenho dúvidas para onde me dirijo.
Quadro: Hieronymus Bosch Ecce Homo 1485-1490
18 julho 2006
Only angels have eyes
16 julho 2006
14 julho 2006
Alma metálica
Não existe como as outras, ou se existe é no outro mundo, aquele a que chamamos imaginação, ou ainda o terceiro mundo, aquele que sabemos existir, não vivemos lá e falamos em seu nome, mais não seja incluindo-nos nele.
Salomé cortou-me a cabeça, aqui há dias numa rua de Barcelona, depois de me ter olhado no mercado de la Boquera.
mas devo contar como tudo aconteceu:
Tentei fugir desse olhar que falava e entrei na Carrer del Professor Marquez, mas voltei a vê-la encostada à parede da rua muito escura (era um dia de sol de 34º em barcelona) que se seguia ao mercado, levei uma salada de frutas como defesa. Entrei num café índio e lá estava ela, agarrada à JukeBox, fumando e deslocando os berloques em círculo.
Em tempos eu não acreditava nas cidades, e fascinava-me pelo cheiro novo e pelas cores.
Agora que carrego todas as cidades do mundo limito-me burocraticamente a mostrar o BI e a tirar o cinto, a carteira, as moedas e despojar-me eventualmente da alma metálica que levo e que apita nos aeroportos.
Ela não deixou que a minha alma metálica passasse em falso por Barcelona e perseguiu-me até que a Avenida Paral-el se tornasse insustentável e me tivesse que refugiar no funicular para Montjuic.
Quando, já sem fôlego, me escondi numa das colunas do Museu de Catalunya, ela estava à minha frente e sem contemplação brandiu a única arma que me poderia cortar a cabeça: desprezo.
10 julho 2006
Sequela dos Tempos II
(remake: em 9 de julho de 2004)
09 julho 2006
Anjo da Guarda
C. acotovelou-se o melhor que pode no teleférico, ao sinal de partida dado pelo homem de azul com ar seguro. Agora um solavanco atirou-os para o imenso nada sobre o mar, entre um zumbido de motor e o vento infiltrado nas janelas semi-fechadas. O silêncio de todos, o sol que tardava em recolher, o remorso em C. Pela palavra que não fora dita ao entrar no elevador, pela dificuldade em ver para além daquela alma revestida a drama, quase ansiosa por tragédia.
Perdeu o sentido do tempo à medida que a viagem avançava, sentia que os sentidos opostos se diluiam e que o cabelo de P. se misturava com o sonho, que ela estava ali na queda imensa.
Antes de o tempo se partir na infinitésima medida, mesmo no momento em que o corpo antecipava o fim dos sentidos, percebeu a fronteira ténue das garras da morte do sentimento, e desejou não perder mais o anjo que o guardava.
07 julho 2006
jogo com lágrimas
Ao ritmo do voo do flamingo, J. deixou a praia com chapéus de sol, deixou que a côr dos seus cabelos se insinuasse com a areia infiltrada de granito, voltou as costas ao mar.
L. deixou a cidade num carro pequeno que comprara, finalmente o seu carro, em direcção ao vento que empurra para sul no verão. Tinha pena de si própria, do que deixara acontecer , do que não pudera evitar, de como a destruição do equilibrio a partira em pedaços que agora circulavam sem nexo entre vias públicas.
I. abandonou a vida fácil de um apartamento no centro da vila e migrou como ave satisfeita para junto do ninho, colhidos os fragmentos necessários .
G. está agora a atirar seixos despreocupadamente para um ribeiro, perdido entre o Alentejo e o Algarve, muitos km longe do mar, que pensa ser onde J. está, embora por vezes lhe apareça I. na mente que supunha abandonada ao simples gesto de atirar seixos ao acaso. Espera por L, mas não sabe que L. não virá nunca na sua direcção.
Nenhum dos personagens sabe nada sobre o momento exacto em que, ao fazer um gesto, que gesto farão todos os outros.
Jogam um jogo que não sabem, julgando apenas que a sua (in)felicidade é única.
06 julho 2006
between the devil and the deep blue sea
don't want you
But I hate to lose you
You've got me in between
The devil and the deep blue sea
I forgive you
'Cause I can't forget you
You've got me in between
The devil and the deep blue sea
I ought to cross you off my list
But when you come a-knocking at my door
Fate seems to give my heart a twist
And I come running back for more
I should hate you
But I guess I love you
You've got me in between
The devil and the deep blue sea
Abre os olhos antes que a serpente te coma vivo
Esta manhã acordei mas não abri o olhos.
O vento que abanava a janela: não o via
A gente que encontrei ontem: não estava aqui
O rosto que podia estar aqui: não o senti.
A continuada angústia, a contagem dos dias, o ponto em que o cérebro decide, o momento em que decide se este é um dia feliz, ou se afinal é outro igual a todos, de todos para todos, o momento em que o cérebro desfila e reconstrói tudo o que é necessário para abrir os olhos, nada desses acontecimentos se sucederam na cadeia normal.
Por isso não valeu a pena abrir os olhos
04 julho 2006
in cielo me porto
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