14 dezembro 2005

Diz-lhe isso depressa


Enquanto G. acabava o chá aromático e olhava para os olhos de D, a sala parara numa espécie de slow-motion de fraca intensidade, e os olhos de todas as almas viraram-se para aquela mesa, ansiosas.

G. sabia do efeito do olhar, sabia porque tinha estudado a pose, sabia porque agora era D. e antes tinham sido T. e antes ainda H.

A primeira vez que G. entrara naquele salão de chá no Largo do Carmo foi para se esconder de um perseguidor comercial que abandonara os seguros e tentava vender-lhe casas. Achou a atmosfera nada estranha, 3 mesas ocupadas, dois homens a ler , um casal a desembrulhar prendas, um empregada de saiote verde e camisa beige com bloco de notas na mão, cabelo apanhado. Cheirava a jasmim, e foi isso que pediu.

Depois, voltou. E reparou, de todas as vezes, que a cena era sempre a mesma, os personagens, e os gestos também.

Voltou desta vez com D., queria contagiá-la com a atmosfera, prepará-la para as palavras que adiara sempre, como sempre.

Mas mal se sentara e sentira o efeito do olhar em D., sabia que nunca lhe diria, não lhe diria que não pensava vê-la de novo, não diria que assim que ela o amasse ele fugiria, que assim que ela sorrisse de forma sincera ele sentiria a repulsa habitual, que iria encontrar no aroma do cabelo dela o aroma entediante do shampoo, que ao beijar-lhe o pescoço iria odiar o perfume, que se irritaria de não saber identificar os odores, sempre iguais. Não seria capaz de lhe dizer nada.

Mas nesse dia, talvez pela proximidade das mesas, talvez pela humidade das almas encurraladas, de repente, do meio das almas suspensas no odor do jasmim, alguém derrubou a cadeira, atirou o bolo de noz para o chão, o livro voou, e gritou: diz-lhe !

Diz-lhe isso depressa.

6 comentários:

jp disse...

Do que é que estás à espera?
Vá! Diz-lhe!

POLYPHEMUS disse...

Não sou eu, é ele ! Diz-lhe isso a ele, ao G. que eu inventei, se és capaz ;)

katraponga disse...

:)

Antes houvera quem nos desse um empurrão assim, às vezes. [sem atirar o bolo de noz ao chão, de preferência... ;)]

Elipse disse...

É que eu também gosto de vir aqui ler os teus flashes de gente em consoantes. Era para te dizer isto depressa :)

jp disse...

ser capaz, até sou, dá-me é tempo que ando sem ele

Sandra Feliciano disse...

"(...) assim que ela o amasse ele fugiria (...) assim que ela sorrisse de forma sincera ele sentiria a repulsa habitual (...)"

Perturbador... e um desafio à Psicanálise! ;)