25 dezembro 2005

Nec spe, nec metu

Sicut cedrus exaltata sum in Libano
et sicut cypressus in Monte Sion
quasi myrrha electa
dedit suavitatem odoris
et sicut cinnamomum

et balsamum aromatizans

(Sou alto como os cedros no Líbano
e como os ciprestes no Monte Sião
e mirra mais excelente,
exalo um odor suave
como a canela e o bálsamo)

24 dezembro 2005

Prendas de natal ainda por embrulhar

Prendas por embrulhar, perdidas ainda pela praia, enquanto C. se aproxima vindo de Sul, com laços brilhantes prateados, papel colorido, fita-cola, etiquetas para colar nos embrulhos, com vento difícil de manobrar; chegará a tempo ?

21 dezembro 2005

Isto tem alguma coisa a ver com o Natal?


D. descansou da corrida de alguns km, sentou-se na relva, e olhou o melro que se escondia na pequena árvore do estádio universitário. Olhou, sem ver, o avião que descia para Lisboa, um dos personagens que fazia parte dos seus domingos, na hora em que todos se retiram para almoçar, para subir ao 3º andar de um apartamento, meter a chave à porta e sentir os cheiros de uma panela com couves e batatas, ver 3 copos de vidro facetado e barato da loja da rua dos fanqueiros, a mesa com uma jarra de flores de plástico, a face e os cabelos estragados de quem se levanta ao domingo e já não tem esperança que o tempo a salve. D. olhou os que se retiravam, mas alguém ficara.

O homem, de camisola verde e camisa azul escura, pegava numa pequena figura que não teria mais de 3 anos e batia-lhe. A criança chorou e ficou deitada na relva. O homem olhou em volta, com as mãos na cabeça, andou uns passos, hesitou, caiu de joelhos e pegou nesse pequeno ser.

D. sentiu as lágrimas daquele homem misturadas com as da criança, e viu como ele a abraçou, e sem nada dizer lhe pediu perdão.

Depois não havia mais ninguém, como não haveria mais ninguém capaz de dizer que D. não voltaria aquele lugar com medo das lágrimas que não eram suas.

16 dezembro 2005

Finge tão completamente

- Agora és artista?
- Porquê?
- Escreves e colas coisas na net, no blogue.
- Isso não é ser artista, é a fingir, é para ler mais tarde
- Mas é arte?
- Não, é cut & pasta
- Spaghetti all'oglio?
- ....
- Não é arte, já percebi, é outra merda qq
- Depois se vê.
- O quê?
- O que é.

14 dezembro 2005

Diz-lhe isso depressa


Enquanto G. acabava o chá aromático e olhava para os olhos de D, a sala parara numa espécie de slow-motion de fraca intensidade, e os olhos de todas as almas viraram-se para aquela mesa, ansiosas.

G. sabia do efeito do olhar, sabia porque tinha estudado a pose, sabia porque agora era D. e antes tinham sido T. e antes ainda H.

A primeira vez que G. entrara naquele salão de chá no Largo do Carmo foi para se esconder de um perseguidor comercial que abandonara os seguros e tentava vender-lhe casas. Achou a atmosfera nada estranha, 3 mesas ocupadas, dois homens a ler , um casal a desembrulhar prendas, um empregada de saiote verde e camisa beige com bloco de notas na mão, cabelo apanhado. Cheirava a jasmim, e foi isso que pediu.

Depois, voltou. E reparou, de todas as vezes, que a cena era sempre a mesma, os personagens, e os gestos também.

Voltou desta vez com D., queria contagiá-la com a atmosfera, prepará-la para as palavras que adiara sempre, como sempre.

Mas mal se sentara e sentira o efeito do olhar em D., sabia que nunca lhe diria, não lhe diria que não pensava vê-la de novo, não diria que assim que ela o amasse ele fugiria, que assim que ela sorrisse de forma sincera ele sentiria a repulsa habitual, que iria encontrar no aroma do cabelo dela o aroma entediante do shampoo, que ao beijar-lhe o pescoço iria odiar o perfume, que se irritaria de não saber identificar os odores, sempre iguais. Não seria capaz de lhe dizer nada.

Mas nesse dia, talvez pela proximidade das mesas, talvez pela humidade das almas encurraladas, de repente, do meio das almas suspensas no odor do jasmim, alguém derrubou a cadeira, atirou o bolo de noz para o chão, o livro voou, e gritou: diz-lhe !

Diz-lhe isso depressa.

06 dezembro 2005

Ships that go sailing


Somewhere beyond the sea,
somewhere, waiting for me,
my lover stands on golden sands,
and watches the ships that go sailing

(charles trenet and jack lawrence)

Verde e Vermelho


S. parou o carro no semáforo, ajeitando a gravata vermelha comprada na Boss da Av. da Liberdade, olhou o espelho, preocupado consigo e com a possivel queda de alguns cabelos. Ligou o número da V. para combinarem o jantar de mexilhões belgas.

K. chegou à esquina onde passara a estar todas as manhãs, encostada ao semáforo, desde muito cedo.
Chegara ali antes do sol, com o vestido comprido vermelho, já muito sujo das muitas vezes que se sentara no lancil, entre os 75 segundos de cada mudança de sinal. Tantas vezes que na sua cabeça já mal conseguia distinguir os carros e os condutores, já mal conseguia estender a mão e balbuciar sempre o mesmo, para receber sempre os mesmos olhares de esguelha, ou receber o reflexo dos óculos escuros.

K. olhou para o carro de S., ali parado. O azul escuro metalizado reflectindo-se na sua cabeça, a fome distraida, os óculos de sol ray ban de S. e a cabeça levantada num sorriso meloso entre conversas com o telefone.

K. levantou-se, só mais uma vez, despiu o vestido, a camisola bege, a roupa interior e ficou só com um lenço colorido na mão.

Subiu para o capot do carro de S., esticou-se ao comprido e adormeceu.

05 dezembro 2005

Espaço Infantil: Voz Maviosa



- Branca como as nuvens do inverno? Não pode ser no verão?
- Ah, não pode, não. Nuvem no verão é nuvem de chuva. Portanto é escura...
- É, mas nos países frios, no inverno as nuvens são escurinhas...
- Olha, vamos parar com essas discussões que não levam a nada. No máximo encompridam o livro e fazem ele muito chato...A pele da princesa era branca, pronto. E as mãos da princesa eram macias como... Ah, não importa. As mãos eram macias, os pés eram pequenos, e a voz da princesa era maviosa.
- Maviosa?
- É, maviosa, melodiosa! Eu sei que essa palavra não se usa mais, mas se eu não usar umas palavras bonitas, meio difíceis, vão ficar dizendo que eu não incentivo a cultura dos leitores. (...)


Ler a storia aqui

01 dezembro 2005

Some walk by night, some fly by day



(Moonlighting - A. Jarreau)

B B & B - am I

After one whole quart of brandy
Like a daisy, I’m awake
With no bromo-seltzer handy
I don’t even shake

Girls are not a new sensation
I’ve done pretty well I think
But this half-pint imitation
Put me on the blink

I’m wild again, beguiled again
A simpering, whimpering child again
Bewitched, bothered and bewildered - am i


( Lorenz Hart & Richard Rodgers)


28 novembro 2005

Troco um desejo por um sorriso

Troco um desejo por um sorriso
Nem é preciso lucrar
Fecho os olhos, se é preciso
No dia em que te beijar

Troco um desejo por um sorriso
Por dentro do nevoeiro
Mostras-me a lua, em aviso?
Mostro-te o sol por inteiro

27 novembro 2005

Do riso e do esquecimento


G. elevou-se da cadeira da classe executiva, a meio da noite sobre o oceano, pela janela pequena rezou à lua, acabou o copo de Cliquot, viu pela ultima vez as listas da camisa da hospedeira, abandonou os auscultadores e o piano de Jarrett, atirou o diário para o chão. A sua camisa de riscas rosas alastrou um vermelho vivo de tinta permanente, a tinta permanente, a última ideia de eternidade possível.

Depois abriu a porta de segurança do avião.


24 novembro 2005

O Grande Baile na Conservatória do Registo Predial

M.A. vestiu a criança de 2 anos com a nova armadura de inverno, chamou H. e desceram para aTransit fria e com cheiro de carne entranhada, deixando os desejos em casa e levando as suas esperanças de uma nova casa, contra toda a chuva e desânimo de uma manhã de Novembro

V. tirou a senha de um golpe. Nove da manhã e mais 23 minutos, atirou o cheiro do Boss de rojo pelo balcão de madeira escura e gasta e voltou para a rua.

L. voltou ali pela terceira vez, agarrado ao kispo velho e molhado, com o cabelo branco penteado para trás, sem lavagem aparente há vários dias, sobraçando pasta escura de onde saiam imaculados e envergonhados papéis.

Duas horas depois falavam os três deste encontro improvável numa sala minuscula com 8 cadeiras, um balcão, 2 funcionários atentos e preocupados, mal vestidos e mal pagos, rodeados de dossiers caídos, prateleiras improvisadas, 30 pessoas pela rua em espera balbuciada, resmungada e resignada.

Os papéis acumulavam-se pelo balcão, as explicações mal humoradas atiradas ao ar entre o silêncio dos inocentes, de cabeça baixa, faziam os circunstantes temer o pior: esqueci-me de algum papel?

Num canto, uma caixa: "Deixe aqui Ideias e Sugestões".

F. olhou e não teve vontade de rir: pegou na agenda, rasgou uma folha e escreveu:

Gostava que pusessem uma colunas lá fora e cá dentro para se poder dançar enquanto esperamos pela certidão

22 novembro 2005

Livro de um voo por entre prédios e folhas de música


T. recorda como as folhas do caderno voaram naquele dia de Novembro, um dia sem poesia, sem alegria nem chuva. Acabara de tocar guitarra na imensidão daquela marquise, onde repousavam lençóis da mãe.

O cabelo estava preso por ganchos negros, daqueles frisados no metal para prender melhor os capilares, havia uma mancha de sol no pescoço livre de enfeites, muito branco, onde duas pequenas manchas secas lembravam o sonho da manhã aflita, da manhã em que era preciso acordar cedo para a audiência, da noite em que o suor a despertara pelas cinco, com um olhar rápido para a frincha da persiana onde esperava ver luz.

Não havia luz, só ruidos de uma árvore que invadia a varanda com ramos longos e folhas animadas, e T. acomodou um pouco a cabeça nas grandes almofadas, gesto que repetiu de um lado para o outro da cama, irrequieta e desfeita em ansiedade. De um lado da cama apareceram dois seres pequenos que a convidaram a tocar um pouco da sua guitarra, sorrindo e parecendo convidar a um ensaio: somos a tua audiência, a antecipação do teu momento mais difícil, vem.

T. voou pela janela, agarrada às mãos daqueles pequenos seres, mostrou-lhes num voo largo o anel de fogo que envolvia as casas, sorriu ao ouvir os gatos, olharam juntos as montanhas azuladas e os campos roxos, sorriu pensando que em qualquer momento regressaria à cama e terminaria a viagem impossível. Voou ainda com o caderno e poisou-o numa pedra colorida, ouvindo um som agudo que lhe pareceu um virar de página.

Quando acordou e finalmente viu a pequena mancha de luz na persiana, suspirou aliviada, como aqueles que se libertam de um pesadelo. Procurou no caderno, onde apontara a composição para a temida audiência.

Reparou então que as folhas estavam rasgadas, nenhuma réstea da sua escrita, apenas duas manchas roxas na capa do caderno que lhe pareceram dois pequenos seres impressos.

17 novembro 2005

Volvo Ocean Race 2005-2006


Saida de Vigo (Nov.05) e chegada a Gotemburg (Jun.06)

Equipas e classificação actual (*):

Leg 01 : Vigo - CapeTown

ABN AMRO ONE (1)
Brasil 1 (2)
ABN AMRO TWO (3)
Ericsson Racing Team (4)
Sunergy and Friends (5)
movistar (6)
Pirates of the Caribbean (6)


The winner of the Volvo Ocean Race will be the boat with the most points accrued when the finish gun goes in Gothenburg on 17 June 2006 !

(*) Ao fim do dia de hoje, 17 Nov

(6) e (6) estão em reparações em Portimão e Cascais, após as 48h violentas do início da regata

15 novembro 2005

O Crepúsculo dos Deuses

LF estava sentada há algum tempo na esplanada da Vela Latina, com a boina comprada na Bershka, ajeitava-a com a mão direita enquanto a esquerda segurava o bloco de notas (oferecido por C.), e ainda não acreditava no que acabara de ouvir: o Candidato de óculos brancos e camisola de gola subida acabara de lhe confessar a desistência da corrida ao putativo lugar de Belém. LF secretamente admirava FT, o seu olhar ao mesmo tempo altivo e assertivo, os olhos quasi-grandes atrás do óculo obrigatório, as mãos magras e os gestos que afirmavam a independência e a "luta" sem mais.
"Mas há 2 meses assegurou-me, digo, assegurou ao país que nunca desistiria! O que o fez mudar de ideias?!"
"As sondagens não me dizem nada. Sabe, LF, a política real faz-se todos os dias, o real olha para nós de manhã e é a gasolina que nos faz agir! O dia nasce e estamos ou não preparados para ele? Diga-me."

LF não respondeu, o gesto de passar o dedo pelo lábio debotou o baton Fetiche levemente no queixo, fechou o bloco de notas que segurava com a mão esquerda e levantou-se, deixando um rasto de eau de toilette CK pela mesa. Telefonou para o jornal:

"SF, toma nota para o editorial: FT desiste pressionado pelo interesse da esquerda, afirmando o seu apoio a um candidato", cito: "melhor posicionado para a derrotar"

Pirates on their way in Leg 01 of the Ocean Volvo Race 2005-2006

11 novembro 2005

Spectrum


Spectrum

Olho para M. e retiro o olhar que poiso em V.
V. inunda o quarto com o olhar que reluz em mim
Onde houvera risos e champagne em copos baços
(gelados)
Há agora este silêncio de aves repousadas na noite
(Com olhos abertos)
A capa de livro aberto enrodilhada na face de V.
Releva as letras góticas,
E está imiscuida com pestanas de V, cujos olhos
(abertos)
Continuam a irradiar a mesma luz com que
(relutante)
Amou M.
O vidro em pedaços polvilha a face e o seio de M.
De um copo antigo de família, agora desprezado
(pulverizado)
A minha mão corre pelo corpo de M e acaricio V.
(com os lábios roxos)
Como se fosse possível continuarmos os três
(mais que doze minutos)

Que fazem aqui este corpos gelados?

10 novembro 2005

Encontro fantástico na Vauxhall Bridge onde Mr William Byrd me aconselhou a temperar a lagosta com açafrão, bem como a audição das Cantiones Sacrae

Espaço infantil : Toca e Foge

Eu sou o Cristian.
Tenho 7 anos.Ando no 1º ano.
Vivo na Aldeia da Mata.Na escola gosto de ler e fazer contas.
No intervalo gosto de brincar e de jogar ao jogo do toca-e-foge, da macaca e da cabra-cega.
O meu clube é o Benfica

Eu sou o Lino.
Tenho 8 anos.
Ando no 2º ano.
Vivo na Aldeia da Mata.
Gosto de brincar ao toca-e-foge.
Eu sou do Sporting.

09 novembro 2005

I can´t get started

I'm a glum one
It's explainable
I met someone
Unattainable
Life's a bore
The world is my oyster no more
All the papers
Where I lead the news
With my capers
Now will spread the news
Superman
Turns out to be flash-in-the-pan


I've been around the world in a plane
Designed the latest IBM brain
But lately
I'm so downhearted
'Cause I can't get started with you


I've been around the world in a plane
I've settled revolutions in Spain
The North Pole I have charted
But man I can't get started with you
And at the golf course I'm under par
Metro-Goldwyn wants me to star
I've got a house and a show place
But can't get no place with you

(Jamie Cullum, Rod Stewart, Frank Sinatra...)

06 novembro 2005

a capella

Se quisesse podia levar-me num cruzeiro à volta do mundo, podia ler os meus lábios e oferecer-me um chocolate pequeno embrulhado em papel violeta.

Se quisesse podia escrever uma carta contando-me uma história arrancada do fundo dos oceanos, contando-me como os dias do mar correm em sorriso, elevando-se em ondas desesperadas em ver tudo o que as almas de um marinheiro destilam em choro salgado, ali, onde ele olha para a camisola suja, passando as mãos uma e outra vez, sem nada.

A não ser uma camisola que alguém tocou um dia, que ele desejaria não tirar nunca até que as suas mãos, agora vazias, pudessem enfim tocar quem as tocou um dia, quem está para lá do horizonte altivo e seco, com dedos longos.

E, tocando quem lhe tocou a alma, pudesse dançar, para além do mar, numa praia onde a bruma e as gotas de água os envolvessem para sempre.

(Dancing on the beach, quadro de Edvard Munch, 1863-1944 )

Afinal, eu também escrevo poemas, se ...

Se me doer alguma coisa
Se puser em relevo o sentimento do dia
Se acaso me doeu o espelho
Se a véspera de natal me assaltar
Se olhar uma fotografia de há um mês
Ou do século passado

Eu também escrevo,
pondo em relevo
Também versejo
como gracejo

Também me odeio,
se me pavoneio
Também me engano,
como este ano

O ano passado,
que não passou
Enrolou,
estendeu para o ano

Não era preciso ser diferente,
nem coerente
Apenas reluzente,
quando não ardente

E assim indiferente
teclo improvisos
Para serem os meus avisos



(foto: Rilke escrevendo no Hôtel Biron, Paris)

04 novembro 2005

What's going on?


Mother, mother
There's too many of you crying
Oh, brother, brother, brother
There's far too many of you dying
That's right
You know we've got to find a way
To bring some lovin' here today

Oh my father, father
We don't need to escalate
You see war is not the answer
For only love can conquer hate
You know we've got to find a way
To bring some lovin' here today
Barricades, can't block our way
Don't punish me with brutality

Talk to me
So you can see
Oh what's going on
What's going on


(Marvin Gaye)

03 novembro 2005

Lua pescada no fundo do Mar (I)

Mesmo que o navio avance mais algumas milhas F. já notou a proximidade dos pontos da carta náutica da misteriosa onda de sonar que enche o radar.

Levantara-se nesse domingo com a boca a saber muito mal, e recordou-se do Dr. JS que o abordara no Bairro Alto na noite anterior, e se apresentara como apoiante de Silva presidenciável, assessor de gravata rosa, de madrugada. JS apresentara-se perante um prato de carapaus de escabeche e copo de favaios, uma agenda preta pequena e de bom gosto com um lápis com o qual apontava sinais estranhos que tanto podiam ser graus de escrita como invenções de bêbado atormentado.

F. escutara divertido a verve do Dr. que passou da gabarolice de apoiante para a de revelador duma missão soberba, reservada a eleitos: descobrir porque razão um astro caíra, ao abrigo da noite, na baía de Cascais.

Como pistas o Dr. JS dissera possuir apenas a da filosofia intuitiva, a boçal figura do amor celestial e outras lúgubres expectativas que alcançava pela redenção da morte pelo amor.

F. leu as coordenadas escritas no guardanapo de papel com nódoas róseas e anotou-as.

01 novembro 2005

Podemos agora saber o que são, isso dos sonhos reais?

Saiu da casa alugada para uns dias, passou devagar pelo pórtico onde se escondiam atrás pedras frias de um lugar anónimo para ele.

Lembrou a hipocrisia do dia obrigatório e depois parou o carro na berma. Onde estão esses seres da tua memória que já não vivem a não ser dispersos entre lembranças de que te julgas o único? Onde estão os lugares onde os corpos perdidos na tua memória repousam, sem que alguma vez te tenhas procupado em homenagear um só que seja?

Diz agora o que sabes dessa noite que recordas agora, onde a tua mãe te visitou e perguntou como estavam todos os nossos, e te agarraste ao sonho e lhe pediste que não fosse, que te prendesse a ela outra vez, que te embalasse e te dissesse e te contasse o que te esperava, que te dissesse que o inesperado é a única coisa que te faz sólido e sentir que és capaz de tudo, ou te faz diminuir perante a memória canalha que às vezes te faz sentar na cama a meio da noite sem saber nada, e te faz atirar a almofada para o chão, envergonhada de lágrimas

25 outubro 2005

Um barco à vela deve ser um assunto sério

A caminho de uma praia em frente a Maputo, 2 horas de barco a motor, lancha rápida com coletes coloridos fazendo lembrar montanhas russas, ou barcos de aluguer em Chicago mesmo em frente ao Drake Hotel onde a Princesa Diana dormiu com Al-Fayed.

C. protege M. simbolicamente, tem medo das vagas e põe o braço protector em volta dos ombros de M, que tem seis anos, seis anos preocupados com as "coisas importantes" do mundo quando olha o globo luminoso que lhe faz companhia no quarto, lá atrás do horizonte, agora uma silhueta da cidade. Na bolsa frigorífica levam camarões panados, sanduiches de fiambre e chá gelado. No saco levam um barco à vela a pilhas.

Na praia aguardam jovens com construções de madeira, o jardim em frente ao hotel tem uma piscina no meio, com água salgada, e C. põe o barco à vela a rodar. M. olha e diz-lhe que esse barco não é a sério. A fotografia de M, C, Cr e B na praia vai desfazer-se em poucos anos até esse momento sério, com outra tripulação, ser enfim a outra verdade.

24 outubro 2005

Good Morning, Mr Radio

São seis e dez na autoestrada, ao km 76 entre Faro e Tavira, há ali um vermelho escuro que começa a aparecer, mas ainda há a noite, e o sabor de luzes de groselha a pingar dos lábios. B. tem o rádio ligado para não perder o que a liga aos sentidos da euforia, do superior olhar para uma forma de vida que parece que a faz sair da rua pequena em que vive, e dos gritos da manhã enjaulada aos primeiros minutos. Da porta pequena da casa onde vive, do cheiro a respiração abafado em poucos m2, do irmão pequeno, da mãe. Dos roubos na Zara e na Parfois, para sair vistosa.

B. olha o que não quer ver, segura o volante com mais força e quer que os reflectores amarelos a façam esquecer tudo o que não quer ver.

A bella machina rola a 210 e lembra a dança dos lençois. A vida é miserável e enfeitada de gente cinzenta, mas B. olha mais além e vê qualquer coisa que a noite e o volante não deixavam ver antes, em forma de espantalho, de braços abertos e boca escancarada. Deixa-se levar mas não pode evitar que esses reflectores lhe mostrem o corpo estendido em alcatrão. O carro desliza e canta como se falasse de quem a levara a roubá-lo, desse que a deslizaria suavemente para lá da vida miserável.

Na radio Antony and the Johnstons tocam Hope There's Someone.

21 outubro 2005

The way we were (II)


Weretwins

Foto: Steve Uzzell - 2005

The way we were (I)


Werewolves, wereleopards, werelions

(Nastassia Kinsky, Cat People - 1982)

20 outubro 2005

Kaleidoscope world

Muita da luz que vem da janela está na minha memória. Mesmo que as horas sejam as horas pequenas da madrugada, não consigo querer dormir, mesmo que as cidades e as luzes que passaram a correr como numa série de fotografias aceleradas, em tantas cidades do mundo, teimem em querer adormecer. Não na minha memória reconstruida todos os dias em Lisboa.

19 outubro 2005

Passeio em Richmond, onde Mr Babell me cedeu umas suites das suas mais celebradas lições reunidas e adaptadas para cravo


(o facto de viver em part-time no séc XVIII, coisa que muitos cépticos considerarão uma excentricidade impossível, faz com que me encontre com regular frequência com artistas que passeiam em herdades perto de Richmond, Twickenham ou mesmo na zona duvidosa das docklands. No primeiro caso, encontrei Mr.W.Babell)

17 outubro 2005

Auto retrato em estação de serviço (V - Final cut)

CM empurrou o carro azul um pouco mais e a construçao desfez-se em pó; lembrou-se, enquanto a nuvem de pó se erguia e tapava a visão da mãe preocupada, da corrida de automóveis que perdera, de como os carros apareciam de repente na curva, de como rugiam os motores, os motores Transformados em máquinas assustadoras, como tinha agora de se esconder no jardim ou debaixo da mesa em pistas de tapete persa.

No dia seguinte levantou-se, muito cansado e sujo, e viu a mãe correr para a porta de entrada, onde dois homens de chapéu olhavam para o chão embaraçados. Não foi preciso esperar muito para ver a mãe desfalecer e começar a chegar muita gente, de mãos na cabeça e a falar muito depressa. A falar muito depressa de um carro preto que batera contra o carro azul e desfizera a vida de passeios pelo aeroporto, a vida de discos no pick-up a tocar suaves canções enquanto a roupa que cheirava bem depois do banho se aconchegava ao corpo. O corpo pequeno de CM estremeceu e correu para a casa de banho onde mergulhou as lágrimas na toalha azul, debroada a seda.

Teria agora a vida toda para encontrar maneira de voltar atrás e não empurrar o carro azul contra os imbondeiros com apêndices pretos como ratos. Arrepender-se de desejar uma vingança.Demoraria tanto tempo, tanto tempo que precisaria de voltar atrás e ver um carro azul numa estação de serviço com uma mulher de lenço branco, um homem de camisa branca e uma criança que o olhava pelo vidro traseiro.

De repente teve a certeza que aquela criança era ele, sonhando com os mortos.

16 outubro 2005

IL Trionfo del Tempo e del Disinganno

Un pensiero nemico di pace
Fece il Tempo volubile, edace,
E con l’ali la falce gli diè.
Nacque un altro leggiadro pensiero,
Per negar sì rigido impero,
Ond’il Tempo più Tempo non è

(Une pensée hostile à la paix
A fait du temps un glouton avide
Et lui a donné la faux avec ses ailes
Une nouvelle et douce pensée est née
Pour contrarier un empire si inflexible
Et par elle le Temps n'est plus le Temps)

Handel - Il trionfo del Tempo e del Disinganno

12 outubro 2005

Escritor famoso (*)

Talvez seja sina. Isto é sinal, um mau sinal, ou pelos menos é sinal de que se escrevo é para não falar.Para não falar, só porque não há ninguém para falar. Ou todos os que há para falar não são os que eram necessários para ouvir o que houvera eu querido dizer.Assim, venho aqui e escrevo, escrevo que parto hoje, não falando. Toda a gente parte de todo o lado para todo o lado, e o animal que me transporta já trouxe outros que partiram para aqui. Tal como eu saio daqui cruzando-me com eles, eventualmente poderia cumprimentar um passageiro ou outro, ou mesmo interpelá-lo: veio de lá? porque vem para cá? eu vou para lá !Assim, venho aqui e escrevo, sem saber se alguem lê, apenas para não falar. Para não dizer a quem poderia não querer escutar, e assim se perder a possibilidade de eu entender, porque o que dissesse não faria ricochete e não haveria a volta das palavras de resposta que nos fazem entender porque falámos assim ou de outra forma qualquer.É sempre outro o tempo, é mesmo uma banalidade escrevê-lo. Mas em cada tempo que é outro, se olha para outro tempo cheio de momentos: parece ver-me ali infeliz, no outro tempo, naquele tempo, mas se o sentia então agora parece-me um tempo mais doce, quase infantil. Porque o outro tempo que não é o de hoje, qualquer outro tempo, é um tempo tranquilo porque resolvido.Tal como se folheia um livro que já se leu até ao fim, de que se sabem já os segredos, mas em que lemos passagens de um momento, saboreando a emoção daquelas páginas, sabendo embora o seu desenrolar e epílogo.Não há portanto tempo de momentos infelizes, da mesma forma que não há agora tempo de momentos felizes.

(*) ver aqui porque se vai do céu ao inferno e deste de volta ! (Para a P. que me trouxe de volta)

05 outubro 2005

A star should guide you my way

Auto retrato em estação de serviço (IV)

So you give to me and I give to you... true love
ºº

CA cantarolava Bing Crosby pela estrada que levava ao Luso. Tinha feito esta estrada várias vezes enquanto vibrava com as canções de Crosby, os duetos com Grace Kelly, a voz de baixo temperado de Martin, a voz que levava CA de volta aos saraus do Ateneu: Sinatra.

Levava uma camisa branca de meia manga e uns calções de caqui, estava quase a vender um Unimog à empresa de M., um filho da mãe que quase o lixara na ... bem, que interessa isso, não deixes a irritação da manhã levar-te, pensou CA, voltando ao True Love. Conduzia um studebaker, azul com capota branca, já velho, e talvez esta venda possibilitasse a troca, ainda não tinha pensado em quê, talvez... passou-lhe uma imagem estranha de um automóvel arredondado, preto, com um símbolo não menos estranho, pareciam umas argolas entrelaçadas, curioso, pensou, o CM antes de partir falou em carros com este símbolo. Arrepiou-se com a imagem dos olhos negros profundos do filho, aquele ar de solidão adulta num corpo tão pequeno, arrepiou-se com esse olhar quando lhe negara uma ida à corrida da Fortaleza. Como se planeasse uma resposta. Em troca.

Olhou os imbondeiros à beira da estrada, cheios de frutos pretos que parecem ratos com a cauda pendurada dos ramos.

03 outubro 2005

A cor dos correios é vermelha

F. deixou a carteira em cima da mesa do telefone dos correios, e ligou para Newark. Enquanto falava com B. pensava na rua onde B. vivia, com uma árvore grande onde repousava á sombra um marco de correio onde sabia que iria parar a carta de onde vinha agora toda a sua fé, de onde vinha agora toda a emoção de duas horas de uma madrugada sofrida, rasgada à custa de uma dor de ser distante.
F. pensava em B. enquanto falava com B., e onde iria para a sua vida, naquelas paragens de língua arrepanhada. F. estava dispensado do escritório da rua nova do almada, daquele escritório sombrio com alcatifa cinzenta gasta de cigarros, daquele advogado velho e sebento, daquela gente desesperada que consultava o velho, mesmo ali em frente ao tribunal, levadas pelo funcionário judicial, à sucapa.
F. pensava e via agora os cabelos de B. pretos com umas manchas amarelas, trazia a foto na carteira. Estava decidido, iria.
Sorriu quando desligou o telefone e olhou o indivíduo de cabelo curto, camisa vermelha escura e senha de espera, com postal na mão e olhar ausente. Pagou e deixou a estação de correios devagar, bebeu um café na tabacaria do lado, cruzou a gare do oriente e atravessou a rua em direcção à loja de telemóveis.

Na entrada, enquanto a porta rolante se preparava para o engolir, parou de repente: a carteira! Voltou atrás a correr, com o coração mais pequeno e aflito, sem tempo de ver um carro preto conduzido pelo homem de camisa vermelha escura, que sorria com uns lábios muito vermelhos e lhe parecia querer dizer qualquer coisa. Não teve poder sobre o tempo e a camisa encheu-se de um suspiro, a imagem de B. outra vez, agora muito vermelha, ainda viu confuso muita gente à volta.

Naqueles segundos lembrou a madrugada de ontem que traçara uma linha que afinal não o levaria a Newark.