11 setembro 2006

E o resto é mar

Cabo de S.Vicente . Agora já sei que és tu quem eu quero para sempre até que o mar seja o resto que resta e que me arraste. Acaba o blog.

18 agosto 2006

Os olhos já não podem ver a lua

A cara de L. era uma pasta de cremes com lábios vermelhos esborratados e pestanas de onde as gotas de suor pendiam teimosas.

Agarrou de novo o microfone e perdeu mais um tempo de entrada, perdeu mais uns brilhantes do vestido rosa curto, com franjas. O homem da guitarra voltou atrás, a bateria deu três toques ligeiros, rufados. Recomeças ou não?

"I went away when you needed me so, open up your eyes, no really knows, everlasting love, dont need no money, no more, everlasting love..."

Os dois clientes restantes sairam deitando abaixo as cadeiras de espaldar redondo de metal. Luzes brancas na sala.

L. baixou-se para deixar o microfone no chão de madeira poeirento, e olhou as luzes brancas que zoavam, ou seriam os seus ouvidos a estalar? ou seriam os anões que circundavam a face e as pálpebras? Era aquele o momento esperado, aquele em que as mãos de oiro e os pulsos chocalhantes se separavam do corpo e iam enfim juntar-se às teclas do piano?

Era aquele o momento em que voltavam a encontrar-se os desejos, e as luzes a iriam finalmente proteger do mundo onde dançava e cantava, agora agora agora, no páteo da vila com uma saia colorida e um laço na cabeça ?

Queria tanto crescer e agora fazia círculos à volta da lua, uma menina encerrada num corpo velho de mulher.

17 agosto 2006

Luta Greco-Romana

(Bachus enjoado - Caravaggio, 1593)

A História Secreta (Donna Tartt) é The Secret History e não The Secret Story, e esta diferença de tradução impossivel faz uma enorme diferença.

"Tenho uma história para contar, mas já é a única historia que posso contar", diz Richard Pappen, o narrador e o espectador, embaraçado embriagado e enrodilhado no remorso.

Hoje o acto, qualquer acto, parece irrelevante, parece não fazer história, mas como um furacão que ganha força de repente eleva-se nos ares e paira sobre quem o cometeu. Paira sempre para sempre, e não vale o esforço de limpar os olhos, esfregar o peito e mergulhar em águas límpidas.

Agora já não nos pertence: o nosso acto (i)reflectido espelha-se nos outros.

O death, where is thy sting? O grave, where is thy victory?

Roy Lichtenstein

16 agosto 2006

Dos cães, das mulheres e dos homens

Há um cão entre esta mulher e este homem.

Oh inocente, liberta-a!




Eric Fischl - 2000

27 julho 2006

Dos homens e das mulheres

As mulheres vivem confusas pelos seus novos papéis, aligeiradas umas, convictas outras, reagindo pela tradição outras, pela ruptura ainda outras.

Os homens vivem confusos e muito atrapalhados pelos novos papéis das mulheres e muito atrasados em relação aos seus, que parecem velhos e não trazem nada parecido com a felicidade. Alguns, como cães, seguindo obedientes, outros, como macacos, catando furiosamente, outros ainda olhando as estrelas como se daí caísse a sua amada prometida.

Desejam-se então, como seres completamente desconhecidos, as imagens que fazem dos outros é uma renda que se desfaz, devagar.

Isto sim é uma crise, um corte.


(quadro: Eric Fischl - the bed, the chair, waiting)

25 julho 2006

A Chantagem das Galinhas

Cansados de tanto desprezo, os "cérebros" exigiram bolsas. Cansados das bolsas exigem agora dólares (ou euros, se faz favor), em pedinchice teatral no aeroporto.

Na patética manifestação de"fuga" já havia cérebros arrependidos. A capoeira estava em pânico.

Nós os que não somos "cérebros" e que não fugimos para lado nenhum agradecemos que se pirem.

O mais depressa possível.

21 julho 2006

If I Were Tickled by the Rub of Love

(...)
And that’s the rub, the only rub that tickles.
The knobbly ape that swings along his sex
From damp love-darkness and the nurse’s twist
Can ever raise the midnight of a chuckle,
Nor when he finds a beauty in the breast
Of lover, mother, lovers, or his six
Feet in the rubbing dust.

And what’s the rub? Death’s feather on the nerve?
Your mouth, my love, the thistle in the kiss?
My Jack of Christ, born thorny on the tree?
The words of death are dryer that his stiff,
My wordy wounds are printed with your hair.
I would be tickled by the rub that is:

Man be my metaphor.


(Dylan Thomas)

Ecce Homo


Saio do carro, entro na área de serviço, são 07.50h de uma manhã de Verão, e vejo que todos os senhores são gordos, têm maletas a tiracolo, usam perucas ou cabelo pintado de castanho, têm adornos de anéis em dedos papudos, usam sandálias de pele castanha e meias brancas, polos de riscas e calções.

As filhas dos senhores gordos usam tops brancos apertados, e calças apertadas e de cintura baixa, deixando que as gorduras, de repente feitas formosuras, invadam o espaço livre do mundo desoxigenado. Os piercings pendem dos umbigos, arranjados de forma a que as pregas da gordura não escondam a preciosidade, enquanto um cinto muito fino descai pela pelvis. Do conjunto sobressaem sandálias de salto muito alto, de corda.

As mães das filhas dos senhores gordos usam calções castanhos, sobrepostos por camisetas de manga cava, deixando ver soutiens brancos ou cremes de tamanho máximo, usam cabelo curto de cor caju, de onde pendem brincos imitando cornucópias, ajeitados entre suiças longas retorcidas no sentido da face retocada e rotunda. Os filhos dos senhores gordos...

Acabei o café e tenho de sair, mas vejo ainda que têm tatuagens nos braços, que as camisetas sem mangas com dizeres anglo-universitários americanos não disfarçam, que ... não posso ficar mais tempo.
Ao sair cruzo-me com motards de cabelho longo grisalho, alguns com lenços verdes amarrados na cabeça, quase todos gordos e aparentando cores rosadas na face e testa enrugada. Entro no carro e ouço na Radio os GNR: " e que tudo mais vá pro inferno". Não tenho dúvidas para onde me dirijo.

Quadro: Hieronymus Bosch Ecce Homo 1485-1490

18 julho 2006

Only angels have eyes

Close your eyes and fall asleep.
Don’t make a sound, not even a peep.
I’ll sing to you in a voice soft and sweet,
Drift with the night, just sleep.

("DREAM" by Paige Stroman)
(Picture: by Melissa Web)

14 julho 2006

Alma metálica

As minhas histórias curtas têm personagens com iniciais. Menos ais, hoje a personagem chama-se Salomé.
Não existe como as outras, ou se existe é no outro mundo, aquele a que chamamos imaginação, ou ainda o terceiro mundo, aquele que sabemos existir, não vivemos lá e falamos em seu nome, mais não seja incluindo-nos nele.
Salomé cortou-me a cabeça, aqui há dias numa rua de Barcelona, depois de me ter olhado no mercado de la Boquera.

mas devo contar como tudo aconteceu:

Tentei fugir desse olhar que falava e entrei na Carrer del Professor Marquez, mas voltei a vê-la encostada à parede da rua muito escura (era um dia de sol de 34º em barcelona) que se seguia ao mercado, levei uma salada de frutas como defesa. Entrei num café índio e lá estava ela, agarrada à JukeBox, fumando e deslocando os berloques em círculo.
Em tempos eu não acreditava nas cidades, e fascinava-me pelo cheiro novo e pelas cores.

Agora que carrego todas as cidades do mundo limito-me burocraticamente a mostrar o BI e a tirar o cinto, a carteira, as moedas e despojar-me eventualmente da alma metálica que levo e que apita nos aeroportos.

Ela não deixou que a minha alma metálica passasse em falso por Barcelona e perseguiu-me até que a Avenida Paral-el se tornasse insustentável e me tivesse que refugiar no funicular para Montjuic.

Quando, já sem fôlego, me escondi numa das colunas do Museu de Catalunya, ela estava à minha frente e sem contemplação brandiu a única arma que me poderia cortar a cabeça: desprezo.

10 julho 2006

Sequela dos Tempos II

Talvez seja sina. Isto é sinal, um mau sinal, ou pelos menos é sinal de que se escrevo é para não falar. Para não falar, só porque não há ninguém para falar. Ou todos os que há para falar não são os que eram necessários para ouvir o que houvera eu querido dizer. Assim, venho aqui e escrevo, escrevo que parto hoje, não falando. Toda a gente parte de todo o lado para todo o lado, e o animal que me transporta já trouxe outros que partiram para aqui. Tal como eu saio daqui cruzando-me com eles, eventualmente poderia cumprimentar um passageiro ou outro, ou mesmo interpelá-lo: veio de lá? porque vem para cá? eu vou para lá ! Assim, venho aqui e escrevo, sem saber se alguem lê, apenas para não falar. Para não dizer a quem poderia não querer escutar, e assim se perder a possibilidade de eu entender, porque o que dissesse não faria ricochete e não haveria a volta das palavras de resposta que nos fazem entender porque falámos assim ou de outra forma qualquer. É sempre outro o tempo, é mesmo uma banalidade escrevê-lo. Mas em cada tempo que é outro, se olha para outro tempo cheio de momentos: parece ver-me ali infeliz, no outro tempo, naquele tempo, mas se o sentia então agora parece-me um tempo mais doce, quase infantil. Porque o outro tempo que não é o de hoje, qualquer outro tempo, é um tempo tranquilo porque resolvido. Tal como se folheia um livro que já se leu até ao fim, de que se sabem já os segredos, mas em que lemos passagens de um momento, saboreando a emoção daquelas páginas, sabendo embora o seu desenrolar e epílogo. Não há portanto tempo de momentos infelizes, da mesma forma que não há agora tempo de momentos felizes.
(remake: em 9 de julho de 2004)

09 julho 2006

Anjo da Guarda


C. acotovelou-se o melhor que pode no teleférico, ao sinal de partida dado pelo homem de azul com ar seguro. Agora um solavanco atirou-os para o imenso nada sobre o mar, entre um zumbido de motor e o vento infiltrado nas janelas semi-fechadas. O silêncio de todos, o sol que tardava em recolher, o remorso em C. Pela palavra que não fora dita ao entrar no elevador, pela dificuldade em ver para além daquela alma revestida a drama, quase ansiosa por tragédia.

Perdeu o sentido do tempo à medida que a viagem avançava, sentia que os sentidos opostos se diluiam e que o cabelo de P. se misturava com o sonho, que ela estava ali na queda imensa.

Antes de o tempo se partir na infinitésima medida, mesmo no momento em que o corpo antecipava o fim dos sentidos, percebeu a fronteira ténue das garras da morte do sentimento, e desejou não perder mais o anjo que o guardava.

o pôr do sol visto de uma janela de um navio de infindas toneladas é como olhar o paraíso de uma caverna sôfrega de sol

07 julho 2006

jogo com lágrimas


Ao ritmo do voo do flamingo, J. deixou a praia com chapéus de sol, deixou que a côr dos seus cabelos se insinuasse com a areia infiltrada de granito, voltou as costas ao mar.

L. deixou a cidade num carro pequeno que comprara, finalmente o seu carro, em direcção ao vento que empurra para sul no verão. Tinha pena de si própria, do que deixara acontecer , do que não pudera evitar, de como a destruição do equilibrio a partira em pedaços que agora circulavam sem nexo entre vias públicas.

I. abandonou a vida fácil de um apartamento no centro da vila e migrou como ave satisfeita para junto do ninho, colhidos os fragmentos necessários .

G. está agora a atirar seixos despreocupadamente para um ribeiro, perdido entre o Alentejo e o Algarve, muitos km longe do mar, que pensa ser onde J. está, embora por vezes lhe apareça I. na mente que supunha abandonada ao simples gesto de atirar seixos ao acaso. Espera por L, mas não sabe que L. não virá nunca na sua direcção.

Nenhum dos personagens sabe nada sobre o momento exacto em que, ao fazer um gesto, que gesto farão todos os outros.

Jogam um jogo que não sabem, julgando apenas que a sua (in)felicidade é única.

06 julho 2006

between the devil and the deep blue sea


don't want you
But I hate to lose you
You've got me in between
The devil and the deep blue sea

I forgive you
'Cause I can't forget you
You've got me in between
The devil and the deep blue sea

I ought to cross you off my list
But when you come a-knocking at my door
Fate seems to give my heart a twist
And I come running back for more

I should hate you
But I guess I love you
You've got me in between
The devil and the deep blue sea

Abre os olhos antes que a serpente te coma vivo


Esta manhã acordei mas não abri o olhos.

O vento que abanava a janela: não o via
A gente que encontrei ontem: não estava aqui
O rosto que podia estar aqui: não o senti.
A continuada angústia, a contagem dos dias, o ponto em que o cérebro decide, o momento em que decide se este é um dia feliz, ou se afinal é outro igual a todos, de todos para todos, o momento em que o cérebro desfila e reconstrói tudo o que é necessário para abrir os olhos, nada desses acontecimentos se sucederam na cadeia normal.

Por isso não valeu a pena abrir os olhos

04 julho 2006

in cielo me porto

De quando és?
Em que época viram teus olhos o fim?
Para quem falas?
De que sonho vem o teu vestido de cetim?


Leva-me já, não deixes que alguem me olhe
No céu estaremos melhor, sem rosto nem espelho
Sem desejo, sem passado, sem quem me adore
Num gesto antecipado, redondo, imaculado.


03 julho 2006

Raiz quadrada de amanhã, um número imaginário


Parece boa ideia voltar para reabrir a avenida. Não se pode pretender meter todo o mundo num barco, querer que todo o mundo goste de um barco, que tb ele vai mudando. E quando estiverem as velas e o vento abertos ao mundo, aqueles que um dia aqui deixaram cair linhas a gosto ou a contra-gosto hão-de dizer que das vidas grandes não se digam coisas pequenas.
E que as imagens, manipuladas, multiplicadas por si próprias, revelam como de um número imaginário se constroem realidades.

31 maio 2006

Alameda no Oceano Atlântico



Por uma vela, primeiro imaginada
Depois sentida

Vejo os dias do Atlântico
Descubro o azul em muitos azuis

Regresso ao cimo do tempo
Imaginando o vento que há.

(avanço para outra Alameda, parece-me bem acabar esta no último dia de Maio, agora que também mudaram os lugares e já não há Tejo, só Atlântico)

18 maio 2006

Morte pela Aventura


Hans Horrevoets (holandês, 32 anos) morreu esta madrugada, caido do veleiro ABN Amro TWO, da Volvo Ocean Race.

O mar não perdoa, e cobra de quando em vez a ousadia de quem o afronta.

08 maio 2006

Behold, I tell you a mystery; we shall not all sleep, but we shall all be changed in a moment, in the twinkling of an eye, at the last trumpet.



Tinhas uma gravata, um casaco azul escuro com um emblema da escola, uns calções, e tinhas só seis anos. Dançavas com a R. já passava da meia-noite. Eu olhava para ti e dançava também e alguém dizia que éramos iguais.

Falavas das coisas importantes, do céu, das estrelas e das laranjas com que eu tentava explicar-te a rotação dos mundos. Ficavas ao meu colo a olhar os meus olhos brilhantes que falavam com os teus olhos brilhantes, e assim consumimos uns anos, entre legos e conversas a ouvir a trovoada.

Descansa que ninguém ocupa o teu lugar, nem mesmo agora que o teu retrato está desactualizado à face do mundo e um dia ficará debotado, como as camisas que usas agora. No teu quarto está a única fotografia que importa: quando a angústia da ausência anunciada me atirou contigo pela mão para os Jerónimos, para ouvirmos juntos o Messias, como se a divindade da música prometesse sair da terra e trazer a revelação para os últimos momentos: Hallelujah!

Depois apanhei um avião (pai, posso ir contigo?).

07 maio 2006

Boat People


Volvo Ocean Race: Leg 6 - Annapolis to New York (ETA: 9 Maio)

04 maio 2006

03 maio 2006

Rue de La Loi


Escrevo-lhe, caro Gerard, para lhe dizer que do meu novo escritório se vê também a Avenue des Arts, onde o meu amigo rasga todos os dias novos horizontes para esta Europa, que tão difícil se nos apresenta. Tenho á minha frente os volumosos dossiers habituais, sem os quais o grupo de trabalho de que fazemos parte jamais veria cumprida a missão de velar pela segurança dos despreocupados cidadãos da nossa Europa.

Madame le Coq vela pelo nosso conforto, trazendo-me chá des etoiles pelas 15h da tarde, quando a minha leitura do Le Soir está no auge. Sabia, Gerard, que a legislação que preparo sobre os tsunamis está praticamente concluida? Sim , digo-o com orgulho, a partir de muito em breve será possível viver em segurança na europa, porque será obrigatório os países com orla marítima erguer uma rede de 11 metros de altura (foi Harriet van Huisman quem fez, os cálculos, pode o meu amigo descansar!), a uma distância nunca inferior a 19 milhas nem superior a 26 (sinto o seu orgulho na precisão dos nossos cálculos, perdoe-me a sinceridade). Como o meu caro perceberá é também a questão dos imigrantes (que lhe é tão cara) que se defende também, a perspicácia do meu amigo nesta questão foi fulcral!

Assim, sem imigrantes nem ondas poderemos finalmente ir em breve descansados até Ostende, sem risco de sermos abordados por desagradáveis magrebinos ou mesmo portugueses oriundos do Canadá. A colega holandesa não evitou um esgar de inveja quando lhe apresentei o projecto de decreto comunitário.

Receba, caro Gerard, a expressão dos meus sentimentos mais distintos,

Pascal deBrueck,

1º secretário da secção 12 da DGXXVIII

28 abril 2006

E os lugares que ficam atrás, pelos segundos de um relance?



O sol na autoestrada joga com a pala e os meus olhos, agora que é quase hora de os gestos que passam pela mente serem os de outro lugar. É sempre outro lugar, de uma distância de uma alma a outra, esta carregada de outros lugares a sonhar com o paraíso, a outra assombrada de outras estrelas.

Menos, agora reduzo a velocidade porque pensei como devia ter sorrido há uns minutos atrás e me esqueci da poesia que podia estar na alma e no olhar de outro; não há maneira de trocar os olhares pelas palavras insensatas, isto é, sem sentido, latu sensu.

Mais, passo pelos sinais de km, conheço já os sinais, conto de memória, adivinho a idade dos outros pelos km e vou pensando: 12 km, 17 km, 22km, 33 km, 48 km, tudo gente da minha vida.

Que fazer com os kilómetros e os lugares onde não se vê ninguém, ou se vêm aqueles que são figuras de um lugar, sem tempo, apenas com os segundos de um relance?

25 abril 2006

Quer mudar o mundo? Mude o meu.

(miradouro da srª do Monte - Graça)

Quando Z. para e ajeita a saia, momentos antes de entrar no café onde vai a seguir encomendar um croissant simples e uma meia de leite, ainda não sabe que a sua vida mudou há apenas 12 minutos.

Há apenas 25 minutos, N. sentou-se no balcão da FNAC do Chiado e pediu um sumo de pêssego com melão, que entornou sobre a manga da camisa de V.

V. não conhece N., assimilou o seu olhar e reparou nas mãos finas e trémulas que faziam par perfeito com os olhos hesitantes.

N.vai em poucos segundos resumir a sua vida com Z., e depois de sentir o coração a bater com estranhas arritmias, deixar que a sua mão pouse na manga da camisa de V. e com um gesto simples afirmar que a liberdade de hoje já é a liberdade de cada ser para si. Já não só a liberdade de cada ser para os outros.

20 abril 2006

A geometria dos amantes numa casa, em África


Tamara de Lempicka (1898- 1980)

Recuperou T. de um pacote de fotografias retirado de uma partilha espúria, que lembrava uma casa, em África. Sim, ele teve uma casa em África, que um dia de 1995 olhou com o coração reduzido a um pequeno mecanismo vivo, pensando como fazer daquelas paredes um animal vivo com quem falasse nos meses que iria ali habitar.

Escolheu Tamara de Lempicka como companhia, decorou as madeiras das prateleiras arranhadas com brinquedos provenientes da rua, imaginações em metal barato de quem vivia na rua. Depois ligou um walkman a umas colunas de som minúsculas, abriu a água quente, pegou num livro de poemas velhinho de Rilke e deitou-se na banheira a tentar perceber o que o afastara de casa qualquer coisa à volta de 6.000 km

15 abril 2006

14 abril 2006

Veja aqui se a sua alma voa, se nem vale a pena desviar o olhar, se


... nem mesmo as mais simples das mais simples coisas, como varrer, aspirar debaixo dos sofás, colocar em sacos os jornais das semanas, as garrafas das semanas, tirar as nódoas do chão da cozinha, lavar os pratos para não encher a máquina devagar, nem mesmo o tempo na varanda a ver o sol a passar pelo dia e pela cadeira e a sombra a fugir, a fugir, e o olhar desviado a fingir que não vê que a sombra não está parada e nenhum sobressalto, grito ou esforço a fará parar. Nem mesmo isso, respirar mais devagar, ver os velhos a andar devagar, estarrecidos pelo andar do tempo que parece vagaroso e os conduziu ali, nem as cadeiras paradas das mães a olhar para os filhos pequenos, devagar, como se eles assim ficassem e não apenas na memória. Nada impedirá que seja de novo rasgada a ânsia do outro, pelo outro, a coisa antigamente designada por amor.

11 abril 2006

Vê-se daqui e parece perto, não acha? Mas não está.

Sou testemunha que sim. Ele queria sim, queria tanto gostar dela.

Era capaz de ficar, sózinho, a mexer em fotografias a preto e branco, a arrumar papéis inúteis, a contemplar a prateleira de onde algum pó rastejava dos livros, pedinchando atenção.

Era capaz de beberricar, sózinho, uma garrafa inteira de um vinho guardado para um momento delicioso e inesquecível, a pensar como gostaria de gostar dela, como gostaria de gostar de olhar a sua mão como se olha o céu azul entre suspiros irremediáveis e embaraçosos.

E sempre que chegado o momento de partir para junto dela, todo o tempo de o fazer tinha passado, reparava que consumira o tempo a querer gostar. Mas não ia.

Tudo fez, eu sei, sei. Não conseguiu, perguntei-lhe porquê. Falou vagamente de imagens que se interpunham, como portas infinitas, ou espelhos auto-reflectidos, como misturas de certezas que parecem mesmo ali.

Não parecia fazer sentido, mas sei, eu sei.

(foto: h.cartier-bresson)

10 abril 2006

Devil with a blue dress

Vejo-te através de um copo azul, confesso
Talvez seja deformação de um vidro partido
Ou de um animal desiludido


óleo :clifford bailey(2005)

06 abril 2006

Comboio azul, comboio azul, comboio azul, comboio azul

Desceu do comboio e sorriu para mim, como só as pessoas felizes fazem, deixando o corpo falar, trazendo uma frase ou duas a sair dos lábios entreabertos, deixando os olhos subir para além do sublime. A mão enluvada endireitou a saia, o sorriso tornou-se embaraçado, eu deixei que os outros olhares me invejassem, enquanto o meu braço direito falou sobre o seu ombro envolto pelo tweed confortável.

Há uma felicidade escondida numa viagem vivida em movimento e em espera. Fazendo um poema público e púdico num movimento único de um encontro sonhado.

05 abril 2006

Apressadamente


D. está a olhar de uma janela, aguardando que as gotas de água que explodem contra o vidro deslizem e a deixem ver o vulto que acaba de entrar num carro branco, apressadamente como só os que têm a vida cheia sabem e podem fazer. D. veste apenas uma camisa branca longa, está descalça e os cabelos castanhos oscilam pelas costas, deixando algum brilho reflectir-se no vidro da porta da sala, que deixou entreaberta, como sempre faz, simulando a necessidade de se deslocar pela casa. Os seus ombros estão tensos e deixa a cinza de um cigarro cair, em pó que despreza e que empurra para debaixo da janela.
Agora consegue agarrar a imagem de si, focando melhor, e desculpa os sulcos que abriram caminho pelos invernos. Os olhos caem sobre os joelhos distorcidos e magros, vê livros no chão, reflectidos pelo vidro da janela. D. tenta antecipar os seus próprios movimentos, ali nos segundos que se seguirão, que depois se juntarão e serão minutos longos. Que antecipa D? como se vai mover a seguir aos poucos segundos que leva a imaginar que a camisa roda com ela, os cabelos descaem de novo sobre as costas e o olhar vai pousar em prateleiras vazias e poeirentas?
Enquanto se abandona a nada fazer, imaginando a inutilidade de qualquer gesto que faça em seguida, D. olha de novo a janela inundada, parecendo-lhe agora iluminada pelo clarear do dia, mas não consegue virar-se para a sala, deixa que a noite volte a ensombrar a rua e que a sua imagem volte a aparecer.

Até que o ciclo do tempo se vá levemente diluindo e a sua imagem seja inalcançavel por qualquer fenómeno químico, e seja apenas uma sombra que alguém recorde, alguém que um dia tenha saído apressadamente, como só os que têm a vida cheia sabem e podem fazer.

31 março 2006

At the Village Vanguard

Traz um vestido branco com brilhos salteados nas mangas, e entra com um leve rasto sonoro dos saltos no pequeno palco onde se colocaram já, há poucos minutos, um contrabaixista com um lenço branco na mão e uma camisa azul escura donde pende uma gravata roxa, um homem de boné e óculos escuros com uma guitarra e um jovem louro de t-shirt branca na bateria. Ela, senta-se ao piano, eu tenho tempo, guardei o meu tempo e desviei numa batota infame as contas de cash flow para uma reserva de coisas a retirar da vida um dia. Deixo o fumo cinzento invadir-me, não temo a proibição patética, a loja de horrores de reguladores e legisladores, o copo está baço e rodeado de angústias em diluição acelerada. Tenho saudades de Roland Kirk e da sua lágrima em Cascais, de Charles LLyod no Estoril, de Dave Holland e Jarrett no Coliseu. E sei como ela deixou o lugar a louras agora idolatradas.



Ela faz do tempo uma coisa ridícula, e começa a dizer, enquanto os dedos sobrevoam o piano:

You won’t forget me, though you may try
I’m part of memories, too wonderful to die
And it will happen, that now and then
You’ll fall to wonderin’ if we shouldn’t have tried

You won’t forget me, on nights like this.
The moon will cast on you the shadow of my kiss
No matter where you are with whom you are
You’ll think of me, you won’t forget me

Just wait and see, you won’t forget me



(homenagem tardia a Shirley Horn que cantou a melhor canção de amor de todos os tempos com Miles Davis, poucos tempo antes de Miles morrer, dez anos antes dela.)

27 março 2006

Luger Parabellum

A minha mãe sentava-se à mesa antes de qualquer de nós. A minhã irmã dizia que a antecipação do ritual era o que mais lhe agradava. Eu estava até ao ultimo minuto agarrado ao gravador apanhando as últimas notas da soul da Discoteca da manhã de sábado, apanhando as tiradas de Shalamar e de Kid Creole, que me faziam de novo sonhar com a Mariana e o seu cabelo pelas costas que agitava na roda da saia. A night to remember.

Servia-se o bacalhau com natas, um pouco de Dão Terras Altas a acompanhar, a sala tinha uma mesa de madeira com pés que rematavam em espiral de mogno. Ao fundo da sala uma vitrina com armas de caça, ao canto uma Luger desasada do espírito da caça, invocando outras noites longas. Antes da primeira garfada a minha mãe levantava-se e colocava a Tosca no gira-discos, para que não houvesse a mais pequena hipótese de algum de nós dizer algo sobre a comida, a noite anterior, a noite seguinte ou mesmo os anos que nos separavam do tempo em que se ria naquela sala.

Não sei porque me lembro agora da mesa, nem porque razão aquilo que eu não via nesses dias é agora tão claro.

Talvez porque a sala é agora agitada por fantasmas de gente que já lá não habita ou não habita em lado nenhum, ou mesmo porque havia um disparo que soara havia já 5 anos mas que não havia maneira de sair daquela mesa.

13 março 2006

Que se passou afinal?

Não foi por acaso que J. passou por ali outra vez, e ainda outra vez.

Ao pensar no que o futuro lhe vai trazer, J., que nada sabe e tudo sabe, pensa outra e outra vez no passado que foi o que ele foi, ou pelo menos o que ele pensa que foi.

J., que nada sabe e tudo sabe, não tem a certeza que possa ser presidente da General Motors, ou mesmo capataz certificado, responsável por vigiar passeantes enlaçados no parque fronteiro ao Palácio do Presidente.

J., que nada sabe e tudo sabe, foi há tempos uma criança que era levada ao aeroporto para recolher fotos que o pai, armado de Polaroid, disparava contra a sebe, encavalitados ambos num poste.

J. teve mãe que o fotografou no berço e sorriu para o pai iluminado de certezas, pelo menos ele acha que as fotos são dele. Mas que pessoa era ele então ? e depois quando beijou a empregada de verão na casa da praia? e depois quando foi fotografado num café, com a camisola azul com vivos verdes que a namorada enfermeira lhe costurara entre turnos? e depois quando largou tudo para ir para a cidade do Cabo porque conhecera C. num campo de férias em Singapura?

Que pessoa era ele? que se passou então afinal, pensa J., agora que a sua vida não parece ser parte desse conjunto de memórias assustadoras?

Que diferença faz pensar no futuro, quando ainda pouco ou nada se sabe sobre o passado.

O que se passou afinal ?

12 março 2006

Todas as almas

Conta-se que o vento leva a memória para longe naqueles dias, quando as mãos pousam na roda do leme e olham para todas as velas no horizonte de bruma. Todas as almas sabem como é deslizar em silêncio, com asas que não tremem nem murmuram mais do que o vento, mesmo que uma atrapalhada recordação teime em fazer frente ao mar.

Ouve-se o chapinhar do barco nas ondas, as gaivotas repousam numa onda que partiu de longe e as eleva e faz desaparecer. O prazer aumenta e os olhos não têm medida, as bolachas repousam na popa com as luvas, com o sol, e apetece ir sempre para lá do que não se sabe, adiar mais o momento de inverter o rumo.

O veleiro dá um impulso a todas as almas.

03 março 2006

Close your eyes



Quando der a meia noite
e os olhos se fecharem
Começa então a roda livre
A hora das crianças brincarem.

02 março 2006

A lágrima ocupa sempre um espaço perdido

Quando íamos jantar a casa do meu pai tínhamos quase sempre uma ementa fixa, resultado do seu temperamento dito pragmático e eficiente. Chegava sempre tarde mas gabava-se de nos pôr a mesa e a comida em poucos minutos e de tudo estar pronto quando tocávamos a campainha.

O meu pai era um homem que gostava de falar das coisas do mundo enquanto jantava, resumia a situação em 30 minutos, mas não falava dele. Sentíamos por vezes que a sua vida era oscilante entre os grandes projectos e a resignação ao trovejar dos dias, como dizia. Sentia eu, que o admirava, que havia naqueles encontros uma emoção contida e uma nunca resolvida angústia de nos ter longe.
Sempre aparentou um ar juvenil, na moda de vestir, na leveza dos gestos e no encanto com que aspirava o ar do charuto enquanto nos lembrava dos episódios de infância ou da adolescência. Eu dizia, ah! sim, claro que me lembro! mas o meu irmão, que herdara dele o ar sisudo mas ostentava os traços bonitos que já lhe escapavam, confessava ingenuamente que "não me lembro nada disso".

Um dia acordei, e olhei numa janela a neve de Londres, perto de Marble Arch. A minha mãe alugara aquele apartamento por uns dias, a pretexto de uns saldos em Oxford Street. O telefone soou depois e disse-me que durante a noite o meu pai morrera de "insuficiência respiratória", uma expressão que achei completamente irrelevante face à inevitabilidade do acontecimento. Larguei a correr sózinha para o metro, sem uma única lágrima. Sentei-me num banco e olhei uma a uma as pessoas que o acaso reunira naquele espaço, sem nada para dizerem umas às outras, orgulhosas da sua indiferença face ao mundo.

Queria tanto lembrar-me da cara dele, dos gestos mais familiares, mas não, só via aqueles rostos desconhecidos.

De repente senti a sua ausência do mundo, e o peso dos dias simples e despreocupados, porque seguros, tornaram-se insuportáveis. Baixei os olhos finalmente.