27 julho 2006

Dos homens e das mulheres

As mulheres vivem confusas pelos seus novos papéis, aligeiradas umas, convictas outras, reagindo pela tradição outras, pela ruptura ainda outras.

Os homens vivem confusos e muito atrapalhados pelos novos papéis das mulheres e muito atrasados em relação aos seus, que parecem velhos e não trazem nada parecido com a felicidade. Alguns, como cães, seguindo obedientes, outros, como macacos, catando furiosamente, outros ainda olhando as estrelas como se daí caísse a sua amada prometida.

Desejam-se então, como seres completamente desconhecidos, as imagens que fazem dos outros é uma renda que se desfaz, devagar.

Isto sim é uma crise, um corte.


(quadro: Eric Fischl - the bed, the chair, waiting)

25 julho 2006

A Chantagem das Galinhas

Cansados de tanto desprezo, os "cérebros" exigiram bolsas. Cansados das bolsas exigem agora dólares (ou euros, se faz favor), em pedinchice teatral no aeroporto.

Na patética manifestação de"fuga" já havia cérebros arrependidos. A capoeira estava em pânico.

Nós os que não somos "cérebros" e que não fugimos para lado nenhum agradecemos que se pirem.

O mais depressa possível.

21 julho 2006

If I Were Tickled by the Rub of Love

(...)
And that’s the rub, the only rub that tickles.
The knobbly ape that swings along his sex
From damp love-darkness and the nurse’s twist
Can ever raise the midnight of a chuckle,
Nor when he finds a beauty in the breast
Of lover, mother, lovers, or his six
Feet in the rubbing dust.

And what’s the rub? Death’s feather on the nerve?
Your mouth, my love, the thistle in the kiss?
My Jack of Christ, born thorny on the tree?
The words of death are dryer that his stiff,
My wordy wounds are printed with your hair.
I would be tickled by the rub that is:

Man be my metaphor.


(Dylan Thomas)

Ecce Homo


Saio do carro, entro na área de serviço, são 07.50h de uma manhã de Verão, e vejo que todos os senhores são gordos, têm maletas a tiracolo, usam perucas ou cabelo pintado de castanho, têm adornos de anéis em dedos papudos, usam sandálias de pele castanha e meias brancas, polos de riscas e calções.

As filhas dos senhores gordos usam tops brancos apertados, e calças apertadas e de cintura baixa, deixando que as gorduras, de repente feitas formosuras, invadam o espaço livre do mundo desoxigenado. Os piercings pendem dos umbigos, arranjados de forma a que as pregas da gordura não escondam a preciosidade, enquanto um cinto muito fino descai pela pelvis. Do conjunto sobressaem sandálias de salto muito alto, de corda.

As mães das filhas dos senhores gordos usam calções castanhos, sobrepostos por camisetas de manga cava, deixando ver soutiens brancos ou cremes de tamanho máximo, usam cabelo curto de cor caju, de onde pendem brincos imitando cornucópias, ajeitados entre suiças longas retorcidas no sentido da face retocada e rotunda. Os filhos dos senhores gordos...

Acabei o café e tenho de sair, mas vejo ainda que têm tatuagens nos braços, que as camisetas sem mangas com dizeres anglo-universitários americanos não disfarçam, que ... não posso ficar mais tempo.
Ao sair cruzo-me com motards de cabelho longo grisalho, alguns com lenços verdes amarrados na cabeça, quase todos gordos e aparentando cores rosadas na face e testa enrugada. Entro no carro e ouço na Radio os GNR: " e que tudo mais vá pro inferno". Não tenho dúvidas para onde me dirijo.

Quadro: Hieronymus Bosch Ecce Homo 1485-1490

18 julho 2006

Only angels have eyes

Close your eyes and fall asleep.
Don’t make a sound, not even a peep.
I’ll sing to you in a voice soft and sweet,
Drift with the night, just sleep.

("DREAM" by Paige Stroman)
(Picture: by Melissa Web)

14 julho 2006

Alma metálica

As minhas histórias curtas têm personagens com iniciais. Menos ais, hoje a personagem chama-se Salomé.
Não existe como as outras, ou se existe é no outro mundo, aquele a que chamamos imaginação, ou ainda o terceiro mundo, aquele que sabemos existir, não vivemos lá e falamos em seu nome, mais não seja incluindo-nos nele.
Salomé cortou-me a cabeça, aqui há dias numa rua de Barcelona, depois de me ter olhado no mercado de la Boquera.

mas devo contar como tudo aconteceu:

Tentei fugir desse olhar que falava e entrei na Carrer del Professor Marquez, mas voltei a vê-la encostada à parede da rua muito escura (era um dia de sol de 34º em barcelona) que se seguia ao mercado, levei uma salada de frutas como defesa. Entrei num café índio e lá estava ela, agarrada à JukeBox, fumando e deslocando os berloques em círculo.
Em tempos eu não acreditava nas cidades, e fascinava-me pelo cheiro novo e pelas cores.

Agora que carrego todas as cidades do mundo limito-me burocraticamente a mostrar o BI e a tirar o cinto, a carteira, as moedas e despojar-me eventualmente da alma metálica que levo e que apita nos aeroportos.

Ela não deixou que a minha alma metálica passasse em falso por Barcelona e perseguiu-me até que a Avenida Paral-el se tornasse insustentável e me tivesse que refugiar no funicular para Montjuic.

Quando, já sem fôlego, me escondi numa das colunas do Museu de Catalunya, ela estava à minha frente e sem contemplação brandiu a única arma que me poderia cortar a cabeça: desprezo.

10 julho 2006

Sequela dos Tempos II

Talvez seja sina. Isto é sinal, um mau sinal, ou pelos menos é sinal de que se escrevo é para não falar. Para não falar, só porque não há ninguém para falar. Ou todos os que há para falar não são os que eram necessários para ouvir o que houvera eu querido dizer. Assim, venho aqui e escrevo, escrevo que parto hoje, não falando. Toda a gente parte de todo o lado para todo o lado, e o animal que me transporta já trouxe outros que partiram para aqui. Tal como eu saio daqui cruzando-me com eles, eventualmente poderia cumprimentar um passageiro ou outro, ou mesmo interpelá-lo: veio de lá? porque vem para cá? eu vou para lá ! Assim, venho aqui e escrevo, sem saber se alguem lê, apenas para não falar. Para não dizer a quem poderia não querer escutar, e assim se perder a possibilidade de eu entender, porque o que dissesse não faria ricochete e não haveria a volta das palavras de resposta que nos fazem entender porque falámos assim ou de outra forma qualquer. É sempre outro o tempo, é mesmo uma banalidade escrevê-lo. Mas em cada tempo que é outro, se olha para outro tempo cheio de momentos: parece ver-me ali infeliz, no outro tempo, naquele tempo, mas se o sentia então agora parece-me um tempo mais doce, quase infantil. Porque o outro tempo que não é o de hoje, qualquer outro tempo, é um tempo tranquilo porque resolvido. Tal como se folheia um livro que já se leu até ao fim, de que se sabem já os segredos, mas em que lemos passagens de um momento, saboreando a emoção daquelas páginas, sabendo embora o seu desenrolar e epílogo. Não há portanto tempo de momentos infelizes, da mesma forma que não há agora tempo de momentos felizes.
(remake: em 9 de julho de 2004)

09 julho 2006

Anjo da Guarda


C. acotovelou-se o melhor que pode no teleférico, ao sinal de partida dado pelo homem de azul com ar seguro. Agora um solavanco atirou-os para o imenso nada sobre o mar, entre um zumbido de motor e o vento infiltrado nas janelas semi-fechadas. O silêncio de todos, o sol que tardava em recolher, o remorso em C. Pela palavra que não fora dita ao entrar no elevador, pela dificuldade em ver para além daquela alma revestida a drama, quase ansiosa por tragédia.

Perdeu o sentido do tempo à medida que a viagem avançava, sentia que os sentidos opostos se diluiam e que o cabelo de P. se misturava com o sonho, que ela estava ali na queda imensa.

Antes de o tempo se partir na infinitésima medida, mesmo no momento em que o corpo antecipava o fim dos sentidos, percebeu a fronteira ténue das garras da morte do sentimento, e desejou não perder mais o anjo que o guardava.

o pôr do sol visto de uma janela de um navio de infindas toneladas é como olhar o paraíso de uma caverna sôfrega de sol

07 julho 2006

jogo com lágrimas


Ao ritmo do voo do flamingo, J. deixou a praia com chapéus de sol, deixou que a côr dos seus cabelos se insinuasse com a areia infiltrada de granito, voltou as costas ao mar.

L. deixou a cidade num carro pequeno que comprara, finalmente o seu carro, em direcção ao vento que empurra para sul no verão. Tinha pena de si própria, do que deixara acontecer , do que não pudera evitar, de como a destruição do equilibrio a partira em pedaços que agora circulavam sem nexo entre vias públicas.

I. abandonou a vida fácil de um apartamento no centro da vila e migrou como ave satisfeita para junto do ninho, colhidos os fragmentos necessários .

G. está agora a atirar seixos despreocupadamente para um ribeiro, perdido entre o Alentejo e o Algarve, muitos km longe do mar, que pensa ser onde J. está, embora por vezes lhe apareça I. na mente que supunha abandonada ao simples gesto de atirar seixos ao acaso. Espera por L, mas não sabe que L. não virá nunca na sua direcção.

Nenhum dos personagens sabe nada sobre o momento exacto em que, ao fazer um gesto, que gesto farão todos os outros.

Jogam um jogo que não sabem, julgando apenas que a sua (in)felicidade é única.

06 julho 2006

between the devil and the deep blue sea


don't want you
But I hate to lose you
You've got me in between
The devil and the deep blue sea

I forgive you
'Cause I can't forget you
You've got me in between
The devil and the deep blue sea

I ought to cross you off my list
But when you come a-knocking at my door
Fate seems to give my heart a twist
And I come running back for more

I should hate you
But I guess I love you
You've got me in between
The devil and the deep blue sea

Abre os olhos antes que a serpente te coma vivo


Esta manhã acordei mas não abri o olhos.

O vento que abanava a janela: não o via
A gente que encontrei ontem: não estava aqui
O rosto que podia estar aqui: não o senti.
A continuada angústia, a contagem dos dias, o ponto em que o cérebro decide, o momento em que decide se este é um dia feliz, ou se afinal é outro igual a todos, de todos para todos, o momento em que o cérebro desfila e reconstrói tudo o que é necessário para abrir os olhos, nada desses acontecimentos se sucederam na cadeia normal.

Por isso não valeu a pena abrir os olhos

04 julho 2006

in cielo me porto

De quando és?
Em que época viram teus olhos o fim?
Para quem falas?
De que sonho vem o teu vestido de cetim?


Leva-me já, não deixes que alguem me olhe
No céu estaremos melhor, sem rosto nem espelho
Sem desejo, sem passado, sem quem me adore
Num gesto antecipado, redondo, imaculado.


03 julho 2006

Raiz quadrada de amanhã, um número imaginário


Parece boa ideia voltar para reabrir a avenida. Não se pode pretender meter todo o mundo num barco, querer que todo o mundo goste de um barco, que tb ele vai mudando. E quando estiverem as velas e o vento abertos ao mundo, aqueles que um dia aqui deixaram cair linhas a gosto ou a contra-gosto hão-de dizer que das vidas grandes não se digam coisas pequenas.
E que as imagens, manipuladas, multiplicadas por si próprias, revelam como de um número imaginário se constroem realidades.