02 março 2006

A lágrima ocupa sempre um espaço perdido

Quando íamos jantar a casa do meu pai tínhamos quase sempre uma ementa fixa, resultado do seu temperamento dito pragmático e eficiente. Chegava sempre tarde mas gabava-se de nos pôr a mesa e a comida em poucos minutos e de tudo estar pronto quando tocávamos a campainha.

O meu pai era um homem que gostava de falar das coisas do mundo enquanto jantava, resumia a situação em 30 minutos, mas não falava dele. Sentíamos por vezes que a sua vida era oscilante entre os grandes projectos e a resignação ao trovejar dos dias, como dizia. Sentia eu, que o admirava, que havia naqueles encontros uma emoção contida e uma nunca resolvida angústia de nos ter longe.
Sempre aparentou um ar juvenil, na moda de vestir, na leveza dos gestos e no encanto com que aspirava o ar do charuto enquanto nos lembrava dos episódios de infância ou da adolescência. Eu dizia, ah! sim, claro que me lembro! mas o meu irmão, que herdara dele o ar sisudo mas ostentava os traços bonitos que já lhe escapavam, confessava ingenuamente que "não me lembro nada disso".

Um dia acordei, e olhei numa janela a neve de Londres, perto de Marble Arch. A minha mãe alugara aquele apartamento por uns dias, a pretexto de uns saldos em Oxford Street. O telefone soou depois e disse-me que durante a noite o meu pai morrera de "insuficiência respiratória", uma expressão que achei completamente irrelevante face à inevitabilidade do acontecimento. Larguei a correr sózinha para o metro, sem uma única lágrima. Sentei-me num banco e olhei uma a uma as pessoas que o acaso reunira naquele espaço, sem nada para dizerem umas às outras, orgulhosas da sua indiferença face ao mundo.

Queria tanto lembrar-me da cara dele, dos gestos mais familiares, mas não, só via aqueles rostos desconhecidos.

De repente senti a sua ausência do mundo, e o peso dos dias simples e despreocupados, porque seguros, tornaram-se insuportáveis. Baixei os olhos finalmente.

3 comentários:

TR disse...

A memória pode ser uma coisa fascinante, magnífica ou terrível..!!

Elipse disse...

Muito bem escrito, Carlos. Agarraste-me, leitora, parecendo que fiquei a salivar pelo resto da cena.

katraponga disse...

Vívido!