17 outubro 2005

Auto retrato em estação de serviço (V - Final cut)

CM empurrou o carro azul um pouco mais e a construçao desfez-se em pó; lembrou-se, enquanto a nuvem de pó se erguia e tapava a visão da mãe preocupada, da corrida de automóveis que perdera, de como os carros apareciam de repente na curva, de como rugiam os motores, os motores Transformados em máquinas assustadoras, como tinha agora de se esconder no jardim ou debaixo da mesa em pistas de tapete persa.

No dia seguinte levantou-se, muito cansado e sujo, e viu a mãe correr para a porta de entrada, onde dois homens de chapéu olhavam para o chão embaraçados. Não foi preciso esperar muito para ver a mãe desfalecer e começar a chegar muita gente, de mãos na cabeça e a falar muito depressa. A falar muito depressa de um carro preto que batera contra o carro azul e desfizera a vida de passeios pelo aeroporto, a vida de discos no pick-up a tocar suaves canções enquanto a roupa que cheirava bem depois do banho se aconchegava ao corpo. O corpo pequeno de CM estremeceu e correu para a casa de banho onde mergulhou as lágrimas na toalha azul, debroada a seda.

Teria agora a vida toda para encontrar maneira de voltar atrás e não empurrar o carro azul contra os imbondeiros com apêndices pretos como ratos. Arrepender-se de desejar uma vingança.Demoraria tanto tempo, tanto tempo que precisaria de voltar atrás e ver um carro azul numa estação de serviço com uma mulher de lenço branco, um homem de camisa branca e uma criança que o olhava pelo vidro traseiro.

De repente teve a certeza que aquela criança era ele, sonhando com os mortos.

7 comentários:

jp disse...

o perfeito dejá vu...
:-)

MRF disse...

... espero que isto seja tudo inventado!

se for, acaba bem.

POLYPHEMUS disse...

JP e MRF,

Minhas caras amigas, sei que parece inverosímil, mas a maior parte das coisas não são inventadas, os personagens são todos verdadeiros, a história tem apenas um toque de fantástico, naturalmente. E como dá para entender o CM sou mesmo eu.
E mt resumido, para formato blog (seja lá o que isso fôr).

jp disse...

Quem é que falou em inverosímil?
e alguêm desconfiou que o CM era o vizinho? ;-)

POLYPHEMUS disse...

a menina R. falou de invenção, o que é natural tratando-se de uma ficção. Também não acho que sejas o João Pinto, dear JP. (º_º)

jp disse...

:o) só me pareço com o gajo nos maleolos, dear Charles

Anónimo disse...

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