15 fevereiro 2006

Sem pinga de sangue

J. estacionou o carro sob o olhar atento do homem escanzelado com um jornal enrolado na mão.

Ficou ali mais 3 minutos a pensar na posição fantástica que lhe ofereceram na empresa para dois dias depois lha retirarem sob o pretexto de interesses accionistas divergentes.

Ficou ali mais 3 minutos a pensar em A. e no olhar distante que ela lhe oferecera uma hora antes e na ausência de palavras que lhe dissera o que já antecipara, remoendo as recusas anteriores e tentando amortecer uma realidade que antecedera a brutal consciência de que algo morre e não volta.

Ficou ali mais 3 minutos a tentar conter a raiva. Pensou no espelho e pareceu-lhe melhor parti-lo. Pensou no fato e resolveu rasgá-lo puxando do canivete dormente no porta luvas. Saiu do carro, abriu o porta bagagem e retirou a carabina de caça. Olhou o homem escanzelado que sorria: "tá bom chefe, pode deixar".
Apontou a arma ao peito do miserável e disparou. Não percebeu porque continuava o homem a sorrir, olhando com graça para o buraco fumegante que lhe ornava agora o lugar onde tivera um dia o coração. J. sentiu-se muito fraco e caiu.

O homem escanzelado não deixou de sorrir, enquanto vestia a roupa de J., e calmamente entrava no carro, compunha o cabelo no espelho retrovisor e retomava a existência que um dia fora de J.

6 comentários:

TR disse...

fantástico! ... era tão bom se fosse facilmente possível...

katraponga disse...

Inspirado pela onda Fantas? ;)

jp disse...

Carlitos, é das energias decerto acumuladas
mudar de pele é caro
e perder toda a identidade ,nao me parece a solução

POLYPHEMUS disse...

Esta alegoria é por acaso acerca de um caso feliz que o autor imaginou : e se fosse ao contrário ? Não se trata de perder a identidade trata-se do castigo para quem quer tudo e acha que o destino comanda. Não comanda!

happy feelings !

jp disse...

O ser um caso feliz, já é relativo.
Se fosse ao contrário, era o chamado tiro no pé,ou pela culatra. Acontece muito,normalmente a quem se acha inatingivel
Happy também para ti

Elipse disse...

Voltei várias vezes para ler e de todas as vezes não consegui comentar. Não era claro para mim ( e ainda não é) em qual dos peitos se abriu o buraco. Sei que pertence ao leitor a interpretação, mas desta vez ultrapassou-me.
Acho que precisava de o dizer.