13 fevereiro 2006

So há isto, mais nada

Sempre que M. visitava o avô apanhava o eléctrico para o Arco Cego, com cadeiras de palhinha, descia no fim da linha e caminhava 200 metros até a entrada imponente da casa, de onde sobressaiam duas mãos de ferro que ele fazia sempre questão em cumprimentar antes de puxar uma delas bem atrás e deixar a ressonância do embate avisar da chegada.

Olhava na entrada o galeão espanhol de madeira encafuado num vidro, enquanto esperava que o J. fosse chamar o avô. Depois iam para a sala que ele temia, muito escura com sofás de orelhas enormes onde se afundava e esperava as perguntas. Pouco depois, invariavelmente, o avô iria adormecer com o copo de cognac na mão.

Ele então esperava uns minutos só com o ruido do grande relógio de parede a tiqueticar, olhando mais para diante e entrevendo a marquise onde repousava numa campânula um requeijão enorme, que nunca se atreveria a comer, uma colher de prata e uma chávena com tons azulados e com barcos. Sentia-se à espera, não sabia porquê, mas estava à espera. Levantava-se e olhava mais de perto o mapa mundo amarelado no meio dos livros de lombadas avermelhadas a lembrar a cor do cognac do avô.

Nesse dia, tão igual, adormeceu também no sofá, entre o ressoar do relógio e imagens confusas daquela sala cheia de gente, noutro dia, encostado ao ombro da mãe, com o pai de pé a discursar, de sorriso assestado e cabelo com um caracol caído para a frente.

Acordou com o toque das 4 da tarde, profundo e que o deixou inquieto. Porque se fica inquieto de repente, avô?

Não houve resposta, mas viu um papel nas mãos cruzadas do homem que ele visitava todas as 3ª feiras. Levantou-se, falou mais alto, mas não teve outra resposta que não o esvoaçar do papel para o chão.

Olhou as mãos brancas do avô, tocou-as ao de leve, sentiu frio e leu:

"Só há isto. Acaba assim, e não há mais nada"

6 comentários:

TR disse...

de repente é tudo terrivelmente efémero...

POLYPHEMUS disse...

É sempre efémero. Para nossa sanidade mental fazemos de conta que não é.
Mas ás vezes, num clarão horripilante, aparece a verdade, e não se perde nada em tentar avisar os outros.

Elipse disse...

... e os outros também estão avisados. É isso o pior de tudo!

katraponga disse...

Os fenómenos efémeros são tão belos como os perenes. Ou é possível dizer que uma estrela cadente é menos bela que a quietude eterna de um lago? A efemeridade da vida não é directamente proporcional à sua duração.

POLYPHEMUS disse...

Efémero quer dizer que passa depressa, que não é duradoiro. Embora as pessoas se julguem eternas (dizendo embora o contrário)ou pelo menos julguem eterna a "alma" (pelo menos isso !). O que eu quis dizer é que não há eternas almas nem corpos. Acaba ali, stop. Flash.

katraponga disse...

Understood. ;)