05 abril 2006

Apressadamente


D. está a olhar de uma janela, aguardando que as gotas de água que explodem contra o vidro deslizem e a deixem ver o vulto que acaba de entrar num carro branco, apressadamente como só os que têm a vida cheia sabem e podem fazer. D. veste apenas uma camisa branca longa, está descalça e os cabelos castanhos oscilam pelas costas, deixando algum brilho reflectir-se no vidro da porta da sala, que deixou entreaberta, como sempre faz, simulando a necessidade de se deslocar pela casa. Os seus ombros estão tensos e deixa a cinza de um cigarro cair, em pó que despreza e que empurra para debaixo da janela.
Agora consegue agarrar a imagem de si, focando melhor, e desculpa os sulcos que abriram caminho pelos invernos. Os olhos caem sobre os joelhos distorcidos e magros, vê livros no chão, reflectidos pelo vidro da janela. D. tenta antecipar os seus próprios movimentos, ali nos segundos que se seguirão, que depois se juntarão e serão minutos longos. Que antecipa D? como se vai mover a seguir aos poucos segundos que leva a imaginar que a camisa roda com ela, os cabelos descaem de novo sobre as costas e o olhar vai pousar em prateleiras vazias e poeirentas?
Enquanto se abandona a nada fazer, imaginando a inutilidade de qualquer gesto que faça em seguida, D. olha de novo a janela inundada, parecendo-lhe agora iluminada pelo clarear do dia, mas não consegue virar-se para a sala, deixa que a noite volte a ensombrar a rua e que a sua imagem volte a aparecer.

Até que o ciclo do tempo se vá levemente diluindo e a sua imagem seja inalcançavel por qualquer fenómeno químico, e seja apenas uma sombra que alguém recorde, alguém que um dia tenha saído apressadamente, como só os que têm a vida cheia sabem e podem fazer.

3 comentários:

you know disse...

É. A nossa percepção das coisas varia demais com o tempo que lhes dedicamos.

Há qualquer coisa de especial que me atrai na tua escrita e ainda não consegui perceber bem o que é -- o que não deixa de ser também, um problema de percepção.

Leio e volto a ler mas não consigo chegar ao fundo deste post - leia-se, ao fundo falso, aquele que sempre encontramos nas coisas que lemos, quando queremos à força dar-lhe um sentido último que encontre algum eco nas nossas próprias vivências.

Mas, talvez seja este enigma que não desvendo que me prende, e me surpreende, e acho que gostava de conseguir mantê-lo assim, e de ser capaz de não querer compreender nada...

POLYPHEMUS disse...

por continuar a não perceber nada é que continuo a escrever. Beckett disse que se soubesse as razões de Godot as tinha escrito...

yk disse...

:)