11 abril 2006

Vê-se daqui e parece perto, não acha? Mas não está.

Sou testemunha que sim. Ele queria sim, queria tanto gostar dela.

Era capaz de ficar, sózinho, a mexer em fotografias a preto e branco, a arrumar papéis inúteis, a contemplar a prateleira de onde algum pó rastejava dos livros, pedinchando atenção.

Era capaz de beberricar, sózinho, uma garrafa inteira de um vinho guardado para um momento delicioso e inesquecível, a pensar como gostaria de gostar dela, como gostaria de gostar de olhar a sua mão como se olha o céu azul entre suspiros irremediáveis e embaraçosos.

E sempre que chegado o momento de partir para junto dela, todo o tempo de o fazer tinha passado, reparava que consumira o tempo a querer gostar. Mas não ia.

Tudo fez, eu sei, sei. Não conseguiu, perguntei-lhe porquê. Falou vagamente de imagens que se interpunham, como portas infinitas, ou espelhos auto-reflectidos, como misturas de certezas que parecem mesmo ali.

Não parecia fazer sentido, mas sei, eu sei.

(foto: h.cartier-bresson)

5 comentários:

Anónimo disse...

olá, gostei muito de seu blog, bem cultural. acesse: www.ocovildodemonio.theblog.com.br é lá que eu escrevo o que se passa comigo. desde já grato pelo espaço cedido.

Elipse disse...

Há certezas que parecem estar mesmo ali e, no entanto, parece que o verdadeiro sentido das coisas é elas não terem sentido nenhum e nisto, em certos dias, temos de estar com F. Pessoa.

outros temperos disse...

Para alguns a vida é mesmo complicada...

katraponga disse...

A distância pode ser uma forma de mentira... ;)

POLYPHEMUS disse...

A vida complicada de uns é a inveja dos que a têm simplificada. A inversa é tb verdadeira, ou então: bem aventurada seja a vida dos simplificados, pois será deles o reino dos céus.