15 janeiro 2006

Venha por este lado, por favor

D. saiu do táxi, a rua estava cheia de gente de domingo, o museu estava iluminado por um céu cinzento, e ela podia sentir a electricidade no ar. Entrou apressadamente, comprou o bilhete, colocou os auscultadores do novo Ipod e começou a visita.

Sinto o teu olhar sobre os objectos expostos, como se aqui estivesses e eu pudesse estender a mão, rodeias as estatuetas e inclinas ligeiramente a cabeça, como se eu pudesse também ler.

D. andou errante pelas salas, agora quase vazias pelo aproximar do fim do dia, não conseguia fixar nada que a impedisse de pensar nele, a mão tocava os objectos, quase eléctricos, a humidade do cabelo, mãos , pele. Dizia para si, enquanto ouvia a guitarra de Bill Frisell, que não queria sair mais dali. O museu é um conjunto de objectos estáticos, imutáveis. Assim seria ela a partir daquele momento.

Vejo a tua imagem reflectida no espelho das telas protegidas, cheiro o teu cabelo, caem gotas de água pelas tuas pálpebras, guardo a tua mão no meu bolso.

D. sentou-se num canto, numa das cadeiras baixas de vigilante, fechou o olhos, deixou que os acordes da guitarra rasgassem o coração enquanto ele ardia, subtilmente já sem corpo e ainda presente. Como era possível sentir ainda a mão dele limpar as lágrimas?

10 comentários:

Elipse disse...

Museus não são conjuntos de objectos estáticos. Todo o passado tem vida. E vive, como comprova a mão dele a limpar as lágrimas.

jp disse...

O passado teve vida, mas os objectos são realmente objectos estáticos.
Representam agora o que se nos adivinha o futuro. Recordados ou talvez não.
A não ser que por ironia ainda hoje, alguém se lembre de lhes fazer a limpeza...

POLYPHEMUS disse...

Foi a personagem D. que o pensou, vou perguntar-lhe o que ela quis significar com aquilo, e depois digo qq coisa :)

katraponga disse...

Espero que isso venha a dar um novo post.

outros temperos disse...

Electricidade com humidade é uma dupla bombástica, não? As lâmpadas explodem, o quadro dispara, uma data de trabalhos é o que é. Por isso diga lá a D. para parar de chorar, antes que estrague o Ipod!

TR disse...

Deslumbrante perspicácia....!!! :-) achas que sim?

Às vezes é assim, queremos reter a pessoa ou o momento ali para sempre, para nós... creio que apesar de tudo o melhor deste desejo é a sua impossível concretização. Não há nada que se compare ao sabor da libertação!

TR disse...

e quem disse que queria manter o bolo?

Fiquei curiosa com a associação...

TR disse...

Deve-se, de alguma forma fazer oq ue se deseja, sendo que o que se deseja não é absolutamente impróprio, proque se o é, temos um problema. De resto, é tudo demasiado durto para se perder sem se saborear, sem falar, sem olhar... tem razão...

Elipse disse...

Ele ainda lá está a limpar-lhe as lágrimas?

Anónimo disse...

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